10.2.15

Diário de Bordos - Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 09-02-2015

A descrição do problema é complicada. Envolve três variáveis (a legislação francesa, a prática da empresa e a Banque Postale); a das suas consequências, pelo contrário, é muito simples (apesar de profundamente oximórica): trabalho muito e não tenho um chavo no bolso.

Hoje fui depositar o primeiro cheque em meu nome na minha conta. Devido às particularidades da conta o dinheiro só fica disponível no fim do mês.

Outra parte do meu salário é paga por transferência bancária de uma empresa sedeada na ilha Maurícia.

Não sei quando chega e se a mesma regra dos dezasseis dias úteis para poder movimentar os fundos (no caso os baixos) se lhe aplicam.

Fui dormir a sesta. O sono é a melhor maneira de desatar nós.

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Dia vinte e cinco ou seis vou para a Florida. Uma a duas semanas depois estarei em Antigua.

Algo me diz que o meu regresso a St. Martin é incerto.

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"Não te aborreces?" pergunta-me C., o chefe de base. "Não", respondo. "Estou demasiado cansado". É parcialmente verdade. A outra parte do remédio são os livros: acabei Behind Closed Doors, uma excelente, pormenorizada e competente descrição das relações entre Stalin, Churchiĺl e Roosevelt; entre ontem e hoje li To Kill a Mocking Bird, livro sublime que acho injusto só agora ter lido.

(Escrevo isto e penso numa das suas frases: "se tirares os adjectivos ficas com os factos").

Estou para sempre enamorado de Scout Finch, a mais gloriosa, terna, encantadora e valente de todas as marias-rapazes da literatura. E não me importaria nada de ter tido Atticus Finch como pai.
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Amar a vida como eu amo é como amar uma mulher feia, ou perturbada. Tem decerto outras qualidades.