3.3.15

Diário de Bordos - Amelia Island, Florida, Estados Unidos, 02-03-2015

A tripulação ficou completa sexta-feira passada; hoje fez sol e calor, pela primeira vez desde que cheguei; fui ao galope do mastro; estou cansado e morto de fome; e um bocadinho farto destas reparações que não acabam. Chateia-me ter de voltar a St. Martin por causa de uma porcaria de um banco.  Não consigo encontrar trabalho em Portugal. Não sei se vá ao Canadá no verão, como tinha previsto.

Não sei nada, na verdade. Trabalho, bebo rum, janto e vou para a cama. Se isto é uma vida.

É. Da qual gosto apesar de dias como o de hoje em que estou farto e me falta energia para contar tudo o que queria contar, faz sol e calor pela primeira vez numa semana e oiço Something Else e Footprints com um puto de vinte e seis anos enquanto espero pelo jantar e bebo Mount Gay..

Não largamos antes de sábado e se largarmos sábado é uma sorte.

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Ontem fomos descobrir o centro histórico de Fernandine Beach. Fui ao bar mais antigo da Flórida. Abriu em 1903 e nunca fechou, "nem durante a Proibição", esclarece o barman. Depois fomos jantar ao Peppers, um excelente restaurante mexicano. Tão bom que pela primeira vez em muito tempo consegui comer o molho picante: merecia o adjectivo.

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O mastro faz vinte e seis metros de altura, quase um metro no diâmetro maior e a cadeira é uma daquelas antigas, uma prancha de madeira estreita e sem apoio para as costas.

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Tudo é antigo no barco. Parece que voltei aos meus inícios na vela. Só que agora a coisa tem sessenta pés, não tem trinta e seis.

A melancolia é uma farsa, às vezes.