21.3.15

Resumo precoce

Numa noite de terça para quarta-feira de Março de 2015 decidi ir para Cuba. Estava em St. Augustine, uma cidade turística do norte da Florida. Tinha de ir de barco, por duas razões: uma, o visto; e duas, o custo.

Saí de St. Augustine para Ft. Lauderdale porque queria parar dois ou três dias num sítio, e St. Augustine aborrecia-me. É uma cidade bonita, turística e cara. O hotel onde estava não era grande coisa. O destino final sendo Key West ou pelo menos uma das Keys e aí encontrar um embarque para Havana.

Março nos Estados Unidos é o mês dos Spring Breaks, uma instituição que desconhecia por completo e cuja ignorância me custou bastante, de todos os pontos de vista. Os hotéis baratos, motéis e hostels estão cheios, as ruas e os meios de transporte invadidos por hordas de estudantes universitários a fazer o que todos os estudantes universitários fazem quando em bandos: beber mais do que devem e foder menos do que dizem.

Passei duas noites em Ft. Lauderdale, depois de uma viagem de comboio agradável apesar de um atraso de duas horas da Amtrak. Passei por sítios bastante bonitos. A Florida é uma permanente mistura de água, terra, árvores e céu e tem paisagens fascinantes, encantadoras no sentido primeiro do termo.

Sexta-feira apanhei um autocarro em Florida City, o último de uma longa série que tinha começado em Ft. Lauderdale, para Marathon. Eram oito e meia da noite, o ETA era às dez e meia. Não tinha sítio para dormir nem muitas probabilidades de encontrar um àquela hora. Apesar disso decidi ir. Em último caso dormiria na praia ou apanharia o autocarro de volta para Florida City – hipótese pouco provável, porque Florida City não inspira muita confiança, mas enfim. No autocarro encontrei uma senhora cujo marido estava preso nas Bahamas “por ter excedido o tempo de permanência no país”. Era preciso tentar recuperar o barco o mais depressa possível, pois corria o risco de ser arrestado.

Isto não é a verdade toda: o marido estava preso não só por ter excedido o tempo de permanência, mas também por ter armas não declaradas a bordo. E uma embarcação apanhada a cometer um crime é arrestada, não “corre o risco de ser arrestada”. Mas isso só o vim a saber depois, já em Black Point, o – de resto idílico – lugar onde está o barco (C., para futuras referências).

Dormi na tipografia onde a senhora (S.) trabalha de noite. De dia dá aulas de SUP e kayak numa escola das Keys. Trabalha demais para pagar os custos dos problemas que o marido lhe provoca e alimentar os quatro cães, quatro gatos e nove iguanas com os quais vive a bordo de uma embarcação de vela de trinta e sete pés. É bióloga e, diz-me, “já fui rica”.

S. não tem dinheiro. Nunca mo escondeu. Por isso acordámos que eu iria buscar o barco às Bahamas e o poderia levar para Cuba, em vez de Haiti. Ela não me pagaria mais do que os transportes – chegado a Black Point eu poderia ir para bordo e obviamente o custo de vida baixaria exponencialmente -.

É igualmente óbvio que as coisas nunca se passam exactamente como nós as planeamos, qualquer que seja a área de actividade. Em tudo o que respeita a embarcações de vela ainda é pior. Como se o senhor Murphy fosse velejador e tivesse feito a sua famosa e incontornável lei especificamente para a navegação à vela.

Do lado do barco o objectivo de S. era impedir o arresto. E do lado de R., o marido, era impedir que fosse parar a uma aparentemente infame prisão nas Bahamas chamada Fox Hill. “R. sofreu traumatismos cerebrais quando era criança e tem alguns problemas”, diz-me S.  naquela primeira noite na tipografia, quando falávamos da situação e estudávamos o que fazer. “Tem alguns problemas” é um eufemismo. Compreensível, mas eufemismo. Ou sinédoque. Ou mentira, para os mais realistas. Seja o que for é, para mim, compreensível. Ela não sabia que se me tivesse dito tudo eu a teria ajudado na mesma.

II
Na madrugada de domingo apanhei o ferry de Ft. Lauderdale para Freeport, nas Bahamas. Foi uma viagem sem história, feita na companhia de duas simpáticas, educadas e bonitas jovens que estavam, elas também em Spring break, mas não se associavam aos bandos de selvagens que às sete da manhã já estavam a beber cava, vodka, cerveja e ou cocktails diversos.

Em Freeport passei a tarde num café chamado Sire’s. Nada vi da cidade. Não teria podido, de qualquer forma: estava em constante comunicação com S., seguindo a evolução da situação, que se alterava constantemente. Digo situação, mas devia dizer situações: a do barco e a do marido. Como sempre havia esperanças, recuos, incompreensões, inabilidades.

R. devia ser deportado uma vez paga a multa de dois mil dólares. Essa multa seria paga pela Embaixada Americana, depois de recebida a soma. A primeira tentativa d transferência não funcionou. O barco seria liberto. Depois não. Depois sim. Depois não (finalmente foi confiscado já eu estava em Black Point). R. não podia de modo alguma ir para Fox Hill. Não iria. Acabou lá.
Tudo isto tendo eu uma minúscula quantidade de dinheiro no bolso. Estava suposto chegar, comprar
leite e embarcar.

C. não estava em condições nem de fazer uma viagem de dia. A desordem a bordo era indescritível. O barco tinha sofrido uma busca pela polícia e atribuí-lhe o caos. “Não”, diz-me S. “R. é sempre assim”. Passo alguns pormenores. Explico a S. que preciso de um mínimo de três dias para pôr o barco navegável, explicando-lhe que isto não é negociável. De qualquer forma não foi preciso negociar nada: C. foi confiscado pelo governo das Bahamas.

Digo-lhe também que temos de reacordar os termos da minha ajuda, porque isto está a demorar e a custar muito mais do que o previsto. Estou pronto a ajudar, e ponho o bolso onde ponho a boca. Mas não posso pôr mais do que tenho no bolso, que é pouco (e nem sequer está no bolso, mas isso é outra história).

A recepção em Black Point foi fria. Os “amigos” de R. eram isso mesmo: amigos com aspas. De certa forma é compreensível: R. não é fácil nem agradável, pelo que me contam dele e vi nos jornais e nos relatórios médicos que S. um dia me enviou.

S. é bióloga de formação, mas agora dá aulas de SUP e de kayak e à noite ajuda numa tipografia. Vive num trinta e sete pés com quatro cães, quatro gatos e nove iguanas. É alta e atraente, pela inteligência e – sei-o agora – pelo dinamismo e energia.

É a segunda vez (pelo menos das que sei) que tem de safar R. de enrascadas. A primeira foi muito mais grave do que esta e levou-lhe o dinheiro que tinha. Agora trabalha de dia e de noite.

III
Mencionei há pouco as duas frentes de luta: o barco e R. Falta uma: a gata Nala, essencial para o bem estra psíquico de R. (e, suspeito, de S.)

Inicio agora a viagem de regresso, com a gata numa gaiola enorme. Não sou, nunca fui grande amigo de animais. Limito-me a não lhes querer mal. A ideia de viajar com uma gata numa gaiola está tão longe de mim como a de pôr um extremista muçulmano a gostar de vinho. Não é só o bolso que ponho onde ponho a boca…

Vou fazer a viagem no Captain C. outra vez, para poupar uma noite de hotel. Confesso que não é grande sacrifício. Recuperei o meu camarote, agora um bocadinho menos arranjado do que quando a ele cheguei pela primeira vez. Nala tem comida e água. Vai fora do camarote: hoje acordei com um cheiro a mijo de gato que só não me fez odiar gatos porque me falta paciência para odiar seja o que (ou quem) for.

C. e a sua indescritível desordem ficam. O pavilhão americano, enorme e arvorado no brandal de estibordo por cima do das Bahamas (três erros de uma só vez), este minúsculo, pende triste, como se tivesse vontade de partir ou pelo menos de ter um convés arrumado. O barco fica para o Governo das Bahamas, que o vai pôr a leilão. S. quer recuperá-lo. Diz que é importante para o equilíbrio psíquico do marido. Espero que consiga, se bem duvide bastante que R. possa – ou deva – viver fora de um hospital.

IV
Domingo não poderei fazer grande coisa em Nassau. Segunda-feira vou ao veterinário para o certificado de saúde, vou comprar-lhe um saco para a viagem e apanho o avião para St. Martin. Faço escala em Miami para entregar o bicho e dizer adeus a S., e a Cuba.

Fica para a próxima.