28.4.15

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 28-04-2015

Não sei bem há quanto tempo  não chove. Ontem à noite não choveu - esqueci-me dos sapatos lá fora e hoje de manhã estavam secos - e ontem durante o dia tão pouco. Mas não me lembro se choveu de manhã ou não. Hoje, nem uma gota o dia todo.

Nestes dias Bocas parece uma senhora que nos ama demasiado, Devia ter um defeito. Não tem. Ser demasiado amado é muito chato, inquietante. Mas mesmo assim melhor do que não ser amado de todo.

Não me queixo, note-se. Constato, coisa muito diferente se bem frequentemente confundida.

Tenho de reconhecer que quero tanto ser amado como quero sedentarizar-me: muito e nada simultaneamente. E que prefiro não ser amado a sê-lo demasiado: questão de familiaridade, sem dúvida.

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O W. está quase e eu mais do que pronto. Se tudo correr bem largamos quarta-feira; se tudo correr normalmente, quinta. É uma sorte ter uma discrepância tão pequena entre correr bem e normalmente. Raro.

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Tenho uma tripulação de sonho. Tanto gostaria que eles pudessem dizer o mesmo do capitão...

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Comecei a seguir as previsões meteorológicas. Tudo indica que vamos parar no Haiti e não em Cuba.

Não sei. Estão avisados: saberemos dois dias antes. Digo estão, mas devia dizer estou. Um dia começarei a pensar em mim tanto como penso nos outros, no trabalho, nessas mariquirices.

Amanhã não é a véspera desse dia. Tão pouco a daquele em que terei dinheiro: isto anda tudo ligado.

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Há noites em que precisava de um comprimido para dormir: sinto-me como se tivesse feito uma declaração de amor à vida  e ela tivesse dito sim.