30.4.15

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 29-04-2015

Largamos amanhã. Isto não significa que largamos amanhã quinta-feira trinta de Abril. Significa que largamos amanhã, amanhã a qualquer momento amanhã.

Todas as largadas têm esta fase: a do "largamos amanhã". Um marinheiro experiente pensa logo naquela canção que o Frank Sinatra canta: "Let's forget about tomorrow for tomorrow never comes".



Ou na da Peggy Lee Mañana is soon enough for me.



E depois conforma-se. Continua a ouvir Peggy Lee,



Enfim: um marinheiro com inclinações literárias sabe que amanhã é uma metonímia. Um assincronismo. Significa Não largámos hoje, e não largamos amanhã. Mas amanhã poderemos dizer Largamos amanhã.

A partir de amanhã vamos dizer todos os dias Largamos amanhã até que um dia acordaremos e diremos Largámos ontem.

Largamos amanhã é isso e nada mais do que isso: uma paragem antes de Largámos ontem, a melhor frase que um marinheiro conhece, mesmo antes de chegamos amanhã (chegámos ontem não existe: chegar tem o condão de dissolver a noção de tempo, a sucessão de dias, inclusivé os tempos verbais).

Um dia largaremos; esse dia não é amanhã. Amanhã largamos. Se alguém vir nisto uma dissonância cognitiva é por uma de duas razões: ou não percebeu nada ou é terráqueo.

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Hoje apareceu-nos mais uma vigia completamente podre, e de qualquer forma ainda não temos a balsa.

Tirando isto estamos praticamente prontos.

O que eu gosto de praticamente.

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Voltemos ao que importa: