8.4.15

Diário de Bordos - S. Luís, Maranhão, Brasil, 07-04-2015

Passo a vida a dizer que não tenho uma casa, tenho muitas. E depois volto a S. Luis e penso "voltei para casa" e não sei como explicar(-me) que isto não é uma contradição.

Uma vez dizia a uma namorada que o Peter's é a minha segunda casa e ela perguntou-me "qual é a primeira"? Não soube o que dizer-lhe, claro, excepto gabar-lhe a inteligência e as mamas, duas coisas (ou três, para os preciosistas) que ela tinha extremamente bonitas.

Agora estou em casa e não sei se é a primeira, juro, ou a segunda. Na verdade é a minha casa agora, ponto.

É preciso um esforço de imaginação: um casarão no centro histórico de S. Luis, recuperado com gosto e com dinheiro (por esta ordem); um jantar ao qual faltou a maioria dos convidados e que acabou por ser comido na cozinha, tigela e colher (e foi um dos melhores chillies que jamais fiz, "juro palavra de honra sinceramente vou morrer assim"); e no fim da noite um arquitecto dinamarquês de setenta e um anos fala-me em Sam Mangwana.

É por estas e por outras que eu acho que não preciso de fumar ou injectar drogas. A vida chega.

Acabámos a ouvir o Sam, o Lars foi deitar-se e eu oiço Franco, Mbilia Bel, Tabu Ley Rochereau, Papa Wemba e pergunto-me como, quando e quanto vou pagar isto.

Porque a felicidade não é de borla. Paga-se e paga-se caro. Mas porra!, que a factura venha o mais tarde possível é tudo o que eu peço. Estou-me nas tintas para o montante.

Vou ficar aqui até Domingo. Parece uma vida, não é?

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Ceci n'explicant que très partiellement cela: tudo indica que tenho as primeiras inscrições firmes para a travessia.

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Estou quase a encontrar a resposta a uma pergunta célebre: "um animal que come merda e fode uma vez por ano ri de quê?" Quando souber conto. Está quase.

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