22.4.15

Diário de Bordos - Red Frog Marina, Bocas del Toro, Panamá, 21-04-2015

O Palmar agora tem comida. E boa, consequência da passagem do Joe. Está muito melhor. E ainda mais estaria não fosse uma execrável gambiarra, daquelas que mudam de cor, por baixo do balcão. Não faz lá nada, palerma.

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Não me posso queixar do excesso de trabalho: tenho mais tempo e tripulação do que coisas a fazer. Nem do armador: simpático, educado, inteligente e sabedor. Não é todos os dias que se tem uma mistura destas. (Tive-a no D. H., por sinal um inglês também).

De maneira não faço: vou fazendo. O ambiente a bordo é óptimo, as coisas vão-se fazendo, e os fins de tarde são passads no Palmar, com ou sem gambiarra.

O mau gosto e a parolice têm muita força, mas não a têm toda.

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Pouco a pouco, com uma surpresa a cada passo, vou amando o Panamá. Isto é: vou querendo amá-lo, conhecê-lo (por esta ordem. É assim que as coisas se passam).

Aquilo de que antigamente não gostava aparece-me agora como um simples conjunto de características com as quais é facílimo conviver (agora. Um dia amá-las-ei).

O mundo é um espelho: olhamo-lo e vemos o que somos. Ou melhor: como estamos.

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Um 57' vazio (a tripulação foi comer a terra com amigos); o sopro da ventoinha chega-me fraco, longinquo; Hildegarde von Bingen explica-me, uma vez mais, que toda a surpresa tem uma gratidão e que a felicidade é a maior e a mais frágil de todas as surpresas.

O jantar estava assim assim: carne picada que refoguei com muita cebola e gengibre em óleo de palma e azeite, e à qual misturei feijão preto e frijoles refritos. Tudo isto em montanhas de especiarias: culantro seco (uma espécie de coentros mais mais intenso), cominhos, paprika.

Continuava a faltar qualquer coisa, um sabor. Fritei umas tiras de bacon e esmifrei-as lá para dentro. Ainda não sei como ficou, após esta adição. A ver.

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O W. está praticamente limpo e arrumado; o mastro grande está limpo; amanhã é a vez da mezena, e de envergar os panos: genoa, estai, grande e mezena. O paiol está quase arrumado; tudo está quase pronto.

Excepto eu: estou muito mais do que pronto.

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Quem acusa os portugueses de serem parolos (são alguns, às vezes. Não todos sempre) devia ver um saloio americano.

Confesso que parolo por parolo prefiro os meus.