13.5.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 13-05-2015

Reparações pesadas a fazer, peças a encomendar e - inevitavelmente - a esperar, dinheiro a chegar às bochechas... A litania é conhecida. Já nem tento fugir-lhe: escolhi a religião pago as consequências.

Estamos fundeados - o Nene não tem lugar na marina e mesmo que estivesse está demasiado vento para arriscar manobras com um bote de quilha longa, vinte e oito toneladas de deslocamento, hélice e motor sub-dimensionados -. San Andrés é o último lugar do mundo onde faria seja o que for num barco, mais do que mudar o óleo.

Mudar um pau de bujarrona é uma porra em qualquer parte do mundo.  Aqui e ao largo é simplesmente uma merda de todo o tamanho. Até na marina (devia levar aspas) o seria.

Não penso muito na merda; dedico mais tempo a pensar como repará-la e como aproveitar o melhor possível desta paragem forçada. E da próxima escala, no México, um país que me encanta e atrai e seduz e me dá vontade de o conhecer todo do princípio ao fim.

Já não atravesso este ano.

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Tinha um contrato com Hamilton, igualmente conhecido por Bosco, para nos fazer os transportes de e para bordo (não temos dinghy).

Hamilton, ou Bosco, é um rasta e - combinação pouco frequente - alcoólico. Está bêbedo de manhã à noite, todas as manhãs e todas as noites. Hoje despedi-o e contratei Adolfo, um senhor sério e, diz-me, que não bebe álcool. A ilha é pequena, toda a gente no porto sabe que estava a trabalhar com o Bosco.

O trabalho consiste em ir buscar-me a bordo às oito da manhã, levar-me às onze, trazer-nos a todos para terra às cinco e finalmente levar-nos às nove. Adolfo pede quase o dobro do que acordei com Bosco, mas é muito mais barato: pelo menos posso contar com ele.

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No outro dia quem me trouxe de bordo foi um Rommel. De ariano isto tem pouco ou nada. Pergunto-me se esta ilha, tão anglófona, sofreu de estranhas simpatias.

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A solidão é a coisa mais volátil que existe: basta termos com quem a partilhar para ela desaparecer.