26.5.15

Spinoza, sempre

§1
"Quando a experiência me ensinou que tudo o que geralmente ocorre na vida trivial é vão e fútil, quando vi que todas as coisas pelas quais eu temia não continham em si nem bem nem mal a não ser até onde o espírito era movido por elas, decidi então indagar se existiria alguma coisa que fosse um verdadeiro bem capaz de se comunicar e pelo qual só, rejeitando tudo o resto, o espírito fosse afectado; ou antes, se haveria alguma coisa através de cuja descoberta e posse, eu fruisse para todo o sempre uma alegria contínua e suprema.


§3
... Na verdade, aquelas coisas que na vida vêm com mais frequência ao espírito, e que os homens, como se pode concluir das suas acções, consideram como bem supremo, reduzem-se a estas três, a saber: riquezas, honra e volúpia. A mente é partilhada a tal ponto por estas três coisas que quase não pode pensar em outro bem.


§12
... Para que isto seja rectamente compreendido, é de notar que o bem e o mal só se dizem de maneira relativa, a tal ponto que uma e a mesma coisa se pode dizer boa e má, segundo os diferentes aspectos (porque é encarada).


§84
Por consequência, nós distinguimos a Ideia Verdadeira das outras percepções e mostramos que as ficções, as ideias falsas e outras têm a sua origem na imaginação, isto é, em algumas sensações fortuitas..."

(Bento de Espinosa, "Tratado sobre a reforma do entendimento", Livros Horizonte, 1971(?), Trad. António Borges Coelho.)

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Um gajo em puto lê Spinoza. Demasiado puto, talvez. Um gajo não é filósofo, nem sequer intelectual. Sabe ler e já é um pau por uma pedra. Um gajo fica apanhado por aquela ideia de que em si mesmas as coisas não são boas ou más, tudo depende de para onde elas "movem o espírito".

Anos depois esse mesmo gajo tenta falar com pessoas para quem o mal é o mal, e o mal é o dinheiro e o capital e o lucro; e o bem é o bem, ele é os valores, as pessoas, as vidas. Um gajo argumenta que nem todos os valores são bons, nem todas as pessoas; que o dinheiro e o lucro, esse malvado lucro podem ser bons, etc. Chorrilhos. Disparates. Ingenuidades. Banalidades que nem de base são. "Sensações fortuitas".

Que se fodam as banalidades. Prefiro Spinoza. Prefiro a liberdade. Antes excomungado mil vezes que arrebanhado uma.