8.6.15

Diário de Bordos - Isla San Andrés, Colômbia, 07-06-2015 / II

Estou neste horrível Beer Station. Não. Estou nesta horrível música do Beer Station. À minha frente vejo a tempestade aproximar-se. O mar está verde azul e cinzento; o céu cinzento apenas, mas em todos os tons, do muito escuro ao quase branco. Não é um simples squall. É uma perturbação que vai durar pelo menos dois dias, suponho.

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Não terei vento para ir, diz o GFS. Acredito: ou não há vento ou é contra. Não acredito: quarta-feira é daqui a muito tempo.

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A música foi substituída por um jogo de futebol. O Beer Station vai ser substituído por uma estação chamada W., que me acolhe como se eu lá vivesse: boa música, boa comida e uma ausência total de televisão.

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O cinzento da tempestade faz ressair o branco das vagas que ao longe quebram no recife. Já estou no mar: a paisagem interessa-me menos do que o que vai trazer. E fico contente por estar em terra. Mas é impossível fugir a tanta beleza, tanta força.

Se estivesse real e não apenas mentalmente no mar começaria a verificar as peias do que levo no convés e do que está no interior; os rizos; iria vestir-me; comer qualquer coisa rápida para estar preparado; verificar todas as vigias e escotilhas.

Isto feito sentar-me-ia à espera. Pouco antes de chegar iria rizar. Pegaria no leme: não gosto de receber um excesso de vento com o piloto. E não, não me perguntaria "o que faço aqui?". Sei perfeitamente o que faço ali e há coisas mais importantes nas quais pensar e às quais estar atento.

Uma tempestade que chega ao fim do dia tem esta qualidade: mistura-se com a noite e deixa-nos sem saber se o escuro é o da noite ou seu e de onde virá e quão forte será o vento. Não gosto de rizar antes, mas às vezes faço-o.

Estou no cockpit. Sei onde estão a lanterna e as manivelas dos molinetes. Todos os cabos estão claros: escotas, adriças; tudo peado; estou comido e vestido; vigias e escotilhas fechadas. Podes vir, puta. Sou homem para ti e muitas mais como tu.

Sou nada.

Sou tudo: trago em mim dez mil anos de tempestades. Estive aqui milhões de vezes. Sou os marinheiros todos que me precederam e ensinaram e os que virão depois de mim. Podes vir, puta. Somos, fomos e seremos homens para ti e muitas mais como tu.

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Estou em terra. Desta escapei.