4.6.15

Soltas e ligeiras

Em caso de dúvida, Bach é uma das respostas. Comecei com os concertos para violino tocados por Menuhin. Agora vou no Rostropovich. Mais dois passos e estou no Gould. Passei por Jarrett, mas o disco está fodido. Metade dos discos está fodida. Não sei o que fazer. Se ao menos eles caíssem à água, como os telefones e os computadores. Infelizmente é ao contrário: a água cai neles.

Bach é uma montanha representada numa carta por curvas de nível. Um gajo senta-se na curva que quer e vê o que quer. Hoje quero ver tudo, de maneira sentei-me no fundo e vou subindo devagarinho. Devemos olhar para a tristeza de cima, não de baixo. (Fundo é uma maneira de dizer, claro. Menuhin está um bocadinho longe do fundo).

Rostropovich é um gajo porreiro: está a tocar há quinze minutos e ainda não se avariou. Toca esta merda destes concertos para violoncelo como o Gould toca as peças para cravo: torna-os impossíveis de ser ouvidos quando tocados por outro gajo qualquer.

Uma vez alguém disse que este blog não é pedante. É melhor parar, se não vai perceber que se enganou.

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Acabei de ler um livro de um autor de quem nunca tinha ouvido falar. Chama-se Thomas McGuane (o autor. O livro é The Bushwacked Piano). É a história de um gajo de boas famílias que decide deixar de o ser (de boas famílias, não gajo) e fazer, literalmente, o seu caminho. Parece um fogo de artifício, ou um rio cheio de remoinhos.

Fez-me pensar, a contrario, num filme americano que vi chamado Two Lane Blacktop, de Monte Helmann: o filme dá a impressão de que nada acontece e acontecem montes de coisas; o livro parece uma farândola com personagens delirantes (entre as quais uma espécie de construtor que não tem um braço e uma perna, felizmente do mesmo lado; e um criador de morcegos na Florida - o construtor faz torres para apanhar morcegos como defesa contra os mosquitos) e no fundo as situações são sempre as mesmas.

Está lindamente escrito e é isso que conta: lê-se num ápice. Não é preciso uma grande insónia. Duas pequenas chegam.

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O Rostropovich também deu de si. Acho que vou oferecer os discos a um ferro velho. Passo para Gesualdo: é uma forma de estar no fundo, mas não no fundo em termos de altitude. No fundo em termos de distância. De profundidade.

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Um gajo passa de raspão pela beleza do que poderia ter sido e não foi e apercebe-se da beleza do que foi e não será. Uma sorte: esteve em duas belezas em vez de uma.

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Gesualdo e Caravaggio. Não sei se alguém fez um filme. Se não, eu ofereço-me. Gosto de sequências felizes. (Pequeno conselho eroto-melómano: não tentem levar uma miúda para a cama e ouvir o Gesualdo. Não funciona, por muito surdas que sejam a pila ou a miúda).

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A única razão pela qual escrever não é a melhor maneira de passar o tempo é que a escrita também diz não.

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Pergunto-me o que ouvir depois de Gesualdo: mais Gesualdo? Marenzio? Escolho Monserrat Figueras: Lux Feminae. Post tenebras lux.

Não encontro o disco. Há nãos contra os quais não vale a pena lutar. Marenzio. Pelo menos aligeira a noite.

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Gosto de ser pedante: é uma das poucas coisas que se pode ser sozinho.