8.6.15

Reedição, ou das grandes vantagens de se ter um blog há uma porrada de anos

Afrodisíaco


Se eu quisesse escrever escrevia. Mas não quero. Preferi não ir jantar ao libanês porque estava cheio e não tinha lugar para  mim, e não ir ao Pavilhão Chinês beber Alexanders e não ir a lado nenhum e vir para casa ouvir uma sonata do Bartók e pensar se os restaurantes que não têm lugar para nós não são um bocadinho como corpos que não têm lugar para nós, um bocadinho só, claro, porque ao restaurante pode sempre voltar-se ou reservar-se ou arriscar de novo e a um corpo não, não se pode. De qualquer forma a questão é saber o que desse corpo queremos, porque os corpos não vêm com menus tipo "quero as mamas mas sem coxas, por favor" ou "quero o ventre. Acompanha com quê?"; ou "ainda não sei  que vou beber. Hesito entre saliva e fluido vaginal". E essa é que é a grande chatice porque dos corpos quero cada vez menos, acho que estou a transformar-me numa espécie de asceta estilita místico-apaneleirado alcandorado numa coluna de desgosto, vejam lá a desgraça.

Enfim, tudo isto para dizer que hoje acabei por vir para casa e quando cá cheguei tinha a Laura à espera; já nem me lembrava de alguma vez lhe ter dado as chaves de casa, mas dei, é óbvio; e hoje venho para casa a pensar em Bartok, vento e dinheiro, que são as únicas coisas em que penso nos sábados à noite quando no dia seguinte tenho regatas e vejo a miúda nua na cama a dizer-me "até que enfim. Estava com medo que não viesses sozinho". Como se ela não soubesse que o risco de não vir sozinho é praticamente zero, nunca trago mulher nenhuma para minha casa, não quero que elas fiquem com falsas expectativas - a casa é enorme, mas eu não tenho um chavo e as gajas ainda se põem a pensar que sou rico e depois tenho que as desiludir e dizer-lhes "querida, não tenho um chavo" e vê-las ir embora desiludidas -.

De maneira não estava nada à espera da Laura na minha cama. Tudo nela é bom, a começar pelo nome. Quero-a toda, crua, mal passada ou passada de todo, às vezes acontece - vai comprar hasch a Sta. Catarina e fuma aquilo tudo até mal se ter de pé -. Hoje não.

Fui para a cama e ela começou a chorar, muito devagarinho, muito ao de leve, muito de passagem. "Aposto que está a correr mal com o teu gajo" disse-lhe; e ela respondeu "acabei com aquilo. Não fazia sentido". "Então porque é que estás a chorar, se não fazia sentido?" "Porque não é fácil". "Não é, eu sei"; mas não me apetecia fazer-lhe amor. Só acariciá-la, mais nada, e ouvi-la chorar. A maioria das mulheres fica mais bonita quando chora, mais densa, mais consistente; não sei como dizer. Enfim, quando chora por determinadas razões, nem todos os choros servem para isso.

De modo estávamos ali os dois na cama, eu calado e ela a chorar sem fazer barulho, sem sequer tremer, nada, imóvel. Eu usava as lágrimas dela para lhe acariciar as mamas, traçava círculos muito pequenos junto dos mamilos com os dedos humedecidos pelas lágrimas e não dizia nada.

"Não é fácil", disse-me ao fim de um bom momento disto. E depois: "come-me". "Acompanhada por quê?", perguntei-lhe; "pelo Rui?" e ela respondeu "idiota. Fode-me" e pronto, ficámos por aí, no que respeita a diálogo, ou a palavras. Laura é a única mulher que conheço que sabe o efeito profundamente afrodisíaco do silêncio, ou de certos silêncios.