14.8.15

Diário de Bordos - Lisboa, 14-08-2015

Não sei se homem prevenido vale por dois; mas sei que aguenta por dois, três ou mais.

Hoje fui despedido. Já não trabalho, com grande pena minha, em Alvaiázere. A coisa não aconteceu brusca ou inesperadamente, pelo que me limitei a lamentar o fim de um tão bom interregno verde numa vida em geral azul.

Felizmente há sequelas: os tremoços do restaurante pescada real (ou real pescada, ou pescada do rei, ou rei da pescada - nunca me lembro -) estavam intragáveis - haverá tremoços depois dos da minha tremoceira de Alvaiázere? Duvido -.

O restaurante da pescada e do rei continua com dois problemas graves. Primo a imperial: boa de mais. Nunca consigo beber só uma. Secundo o frango assado. É demasiado bom. Mas enfim, são problemas com os quais consigo viver, apesar de pobre e doente. E podia acrescentar um terceiro: a simpatia do senhor que assa os frangos e "tem um tio que era maquinista nos barcos" e "quer ir ao Panamá e às Caraíbas".

Ou seja: estou em Lisboa.

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Aborrecido, mas não mais. Por uma insondável razão (ou conjunto delas) suportamos melhor o que confirma as nossas expectativas, por piores que sejam, do que aquilo que nos colhe de surpresa. O homem não gosta de surpresas (e se for alemão não gosta delas nem boas).

Resta-me descansar e escrever, objectivos antinómicos s'il en est.

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A viagem de regresso foi fluida: camionete, comboio e metro sucederam-se num caldo de curiosidade e sono, alternados como camadas de bebinka: passo de uma vida a outra como de um meio de transporte a outro, olhando, dormindo, sonhando, lembrando e imaginando como se se tratasse de mudar de tapete rolante num aeroporto.

Feliz aeroporto!

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O meu contacto com a alta burguesia rural portuguesa foi infelizmente curto e superficial. Tenho pena. Não porque goste particularmente de espécies em vias de extinção mas porque gosto das pessoas, todas.

Pelo menos até as conhecer.

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Encontrei o meu disco rígido externo. Posso de novo ouvir a minha música. Pergunto-me como ficarei quano o perder de vez e não gosto da resposta.