27.10.15

Diário de Bordos - Lisboa, 27-10-2015

Estou cansado mas tenho sorte: não estou cansado como o outro. Não é de já nada esperar que estou cansado. É da luxúria de esperar.

A esperança é uma falha da inteligência, eu sei. Apesar disso estou cheio de esperança, como a Lua se enche de luz que não é dela e a reflecte e nós só a vemos a ela e pensamos que é o luar e esquecemos que o luar vem do Sol como a esperança vem dos dias que vivemos, dos dias que nos enchem como o de hoje me encheu. De esperança, por muito ingénua que a palavra possa parecer.

Um dia que começa perdido no Alentejo a caminho de Mértola não pode ser um mau dia.

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Ilusão óptica: é-me impossível andar por Mértola sem me ver lá.

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Quinta-feira aterro em Panamá. É uma cidade inventada. Incêndios, terramotos, ataques de corsários, bombardeamentos... Nada há que não lhe tenha acontecido e ainda ali está, no meio de continentes, hemisférios, culturas e oceanos.

Quatro meses no Balboa Yacht Club equivalem a quatro anos noutro lado qualquer: não há navio que não nos passe pela frente nem sonho que não vejamos desfeito ou realizado, Panamá é uma espécie de rampa de lançamento de foguetes que lhes recolhe os detritos quando rebentam e os aplaude quando não. Nada daquilo parece real: os navios passam mas não ficam, tal como os sonhos.

Não conheço ninguém que viva em Panamá porque sim; todos lá ficam porque não.

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Panama - St. Martin - Atenas - Los Angeles - Mértola. Parece-me um bom programa, global e englobante.

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Isto dito pergunto-me como viver num país em que trato toda a gente pelo primeiro nome imediatamente e me respondem com "senhor Luís".