14.11.15

Diário de Bordos - Errol Flyn Marina, Port Antonio, Jamaica, 14-11-2015

A chegada à Jamaica foi pouco auspiciosa. Não estava previsto pararmos aqui, mas a V. teve um acidente grave e foi preciso repatriá-la. A única coisa que vi de Kingston foi o hospital. À nossa espera estava a habitual corte de agentes da autoridade (Imigração, Alfândega, Polícia Marítima, cada entidade representada por duas pessoas não vá uma perder-se) e a consulesa de Espanha que tinha sido chamada pelo namorado da V. para nos ajudar.

Ajudou, e muito. V. foi dormir a casa dela, eu voltei para bordo e no dia seguinte, de manhã cedo como de costume acordei, vi que a quilha ainda estava enterrada no lodo e resolvi ir-me embora, apesar de saber que devia fazer primeiro a clearance. Não fiz: a ideia de esperar ali quase 3 horas que o escritório abrisse e depois mais não sei quantas pela chegada de suas excelências pareceu-me insuportável. Parecença essa que me custou oitocentos e trinta e quatro dólares americanos.

Segunda-feira vou a Kingston tentar reduzir esta absurdidade.

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Resumo da viagem: o meu rumo e o vento na mesma linha, eu para lá e ele para cá.

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O vento chegou às três da madrugada, com o ímpeto e as hesitações dos ventos novos. O S. M. comporta-se às mil maravilhas. São sete da manhã e já rizei, desrizei e voltei a rizar. Mas oito nós de VMG compensam tudo e mais alguma coisa.

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Não há melhor revelador de carácter, personalidade, feitios, defeitos e qualidades do que o mar.  Se eu fossse psicólogo, psiquiatra, coach ou afim abriria um consultório num barco e promovê-lo-ia dizendo "quer saber quem é realmente e o que vale? Venha bolinar connosco".

Infelizmente não auguro grande sorte à iniciativa: ninguém gosta de pagar para descobrir que não vale uma merda.

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Suporto mal a estupidez, mas de certa forma perdoo-a (não só por simples mecanismo de auto-defesa mas também porque é involuntária). Já ser banal é uma escolha e imperdoável.

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Pela primeira vez na vida tive de desembarcar um tripulante por causa de um acidente. Recebi simultaneamente uma vasta e caríssima lição. Quem não fica estupefacto com a quantidade de coisas que aprende todos os dias? Eu fico.

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É paradoxal que apesar de tudo a Jamaica me pareça um país simpático e me dê vontade de a conhecer melhor.

A chegada a Porto Antonio é de tirar a respiração.