16.12.15

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 15-02-2015 / II

Trabalhei muito e bem; tanto que consegui cortar uma coisa da lista. Isto é, cortar a cem por cento, eliminar, apagar.

Limpei os tanques de água. Tudo o mais foi começar ou continuar ou avançar ou marcar para data posterior.

Mas não me posso queixar. A quantidade de coisas terminadas está quase a meio da lista. Se tivesse o Microsoft Project a imagem seria bonita.

Não tenho, mas é bonita na mesma.

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A X é a minha marca favorita, mas às vezes tem coisas desconcertantes. Parece que convidaram um engenheiro francês para desenhar algumas partes do barco. Para os tanques de água tinha orçamentado uma hora. Foram mais de três, quase quatro. Para tirar os paneiros que cobrem dois deles tem de se desmontar a mesa do salão (e não foram mais porque um dos tanques não tem porta de visita). Ou seja: dos três tanques limpei dois e levei o triplo do tempo que esperava levar. Parece-me um bom epítome do que é trabalhar numa embarcação. Não acrescento de recreio, se bem a tentação da ironia seja forte. São todas iguais.

As francesices e a lógica de residência secundária  (em vez de barco) no desenho do interior são as duas coisas de que não gosto no S. M. Isto dito, o bote é uma maravilha e quanto melhor o conheço mais gosto dele.

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Seria difícil de outra forma. Deitado no cockpit após um jantar correcto a ouvir Carlo Gesualdo, com uma temperatura perfeita, cansado, feliz e leve... Como não gostar?

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Arranjei uma ajudante. Estava a dormir na Little Crew House mas não tem dinheiro e precisa de um sítio mais barato.

Aqui é de borla: basta trabalhar. Dei-lhe o camarote de vante (o do armador) e disse-lhe que podia ficar três ou quatro dias à experiência.

Ajuda e é simpática. Se continuar assim tem casa para dormir e eu um par de braços para ajudar.

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A dor no ombro esquerdo é uma chata, melga, peganhenta. Pergunto-me se não seria melhor ter dores intensas, fulminantes em vez destas magoa-tolos.

Não.