13.2.16

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 13-02-2016 / II

Dia estúpido. Parece que estou colado ao monitor do tablet. Acabo numa tasca mexicana a comer tacos e a beber uma Margarita. A cidade está animada, cheia de vida. A temperatura subiu - à ida tive de tirar a polar e o blusão que aqui comprei há uns dias -.

Não há dias estúpidos. Acabo de receber um mail de H. R., que conheci há seis anos em La Rochelle (ou mais. A última vez que estive em La Rochelle deve ter sido em 2007 ou 8). Diz-me que vem a Lisboa e gostaria de me ver. Quem falou em dia estúpido? Não estarei, claro. Em Abril devo estar - coincidência - em pleno México. Mas que prazer me dá. Foi uma pessoa que me marcou bastante, uma personalidade incrível, forte, aventureira, segura de si.

Não há dias estúpidos quando se tem uma vida cheia, parvalhão.

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De modo a Margarita ganhou um s no fim e eu um sorriso (tanto mais que são baratíssimas). Vou retomar o meu caminho de bordo mais leve. Se não fosse o raio do tablet não teria recebido o mail agora. Talvez isto não passe de uma máquina de nos ligar ao passado.

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Vêm-me à mente os versos de Reinaldo Ferreira: "Voa cavalo, galopa mais / rumo àquele ponto / exterior ao mundo / para onde tendem as catedrais". E logo a seguir a canção de Geraldo Vandré: "Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". tenho passado a vida a galopar, nunca esperei que alguém fizesse a hora por mim.

De onde me vem esta insatisfação permanente, esta ideia de que amanhã será melhor do que hoje, quando hoje já é tão bom (pelo menos agora. Antes foi uma seca)?

Penso no ano de 2009, o ano do Mares Olhares; 94, quando fui para o Burundi; 83, quando apanhei o ciclone no Atlântico; os anos em que nasceram os meus filhos; o ano em que comecei uma empresa de charter nos Açores; o ano cheguei ao Brasil pela primeira vez (76, meu Deus. 76!); o ano em que fiz uma viagem inesquecível pelo norte de Moçambique com uma equipe de televisão inglesa. Podia pensar em tantos, tantos anos... Tudo por causa de um e-mail de uma senhora que não vejo há meia dúzia de anos e conheci meia dúzia de dias.

De repente a melancolia transforma-se numa coisa mais fácil, mais leve, com menos sílabas.

Um dia páro. juro. Não de encontrar pessoas apaixonantes, mas de me lembrar delas.