29.4.16

Diário de Bordos - De Panamá a Barillas Marina, Aserradores, El Salvador, 22 a 28-04-2016

A noite está muito clara apesar de a lua se ter escondido atrás de uma camada de nuvens (Altostratus, para quem possa interessar). Pouco densa, o que explica a claridade.

Vamos a motor, como esperava. Há um bocadinho de vento (pela proa, é inútil dizê-lo) mas serve apenas de arrefecimento.

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Parece-me que consegui resolver os problemas com a tripulação. A ver. Mas uma coisa é resolver os problemas e outra ter prazer em navegar com eles. Não tenho. G. é um adolescente de cinquenta e oito anos (feitos ontem). Está numa situação difícil mas isso não explica nem muito menos justifica. Serve de circunstância atenuante, quando muito. Apesar de tudo prefiro R., brasileiro de Natal. É desconfiado e susceptível mas é frontal, directo, honesto. E cozinha bem, qualidade que não estraga nada antes pelo contrário.

Mas foi passada um linha e agora fazer marcha atrás e pretender que está tudo na mesma é inútil. Pelo menos parcialmente: para mim conseguir respirar ao lado de G. será uma grande vitória. Por enquanto não posso. O homem tira-me o ar. Só de o ver fico nauseado. É viscoso, melífluo, traiçoeiro como uma serpente.

Enfim, falta um mês. Um mês na Costa Oeste da América passa depressa. Hoje já viram uma baleia, mantas e os inevitáveis mas sempre agradáveis golfinhos. Eu vi uma barbatana que não identifiquei. Talvez um tubarão pequeno. Não sei.

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Estou de quarto, com vento fraco pela proa, mar chão, a motor numa noite calma, clara e fresca. Oiço o motor e o barulho da água. Estou triste, ansioso, febril, impaciente. Quero chegar a Los Angeles o mais depressa possível. Passe a auto-citação: é preferível estar no sítio errado com as pessoas certas a estar no sítio certo com as pessoas erradas.

Penso no que vou fazer depois, numa senhora que espera por mim na praia, nestes últimos seis anos, nos próximos seis ou dez ou vinte. " I do not fuck much with the past but I fuck plenty with the future".

É tempo de mudar de vida. Esta acabou. Já não me consegue mudar e esse deve ser o critério: muda de vida no dia em que a vida deixa de te mudar.

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Ontem fiz uma análise profunda aquilo que estou a fazer mal. Depois fui comprar mais comida e refrigerantes. Beber refrigerantes no mar é ainda mais estúpido do que bebê-los em terra. O açúcar desidrata e fica-se com mais sede. Mas são grandes e não sou pai deles. O M. bebia Coca-Cola ao pequeno-almoço. Il était con comme trois balais. Est-ce que ceci explique cela? Va savoir. Talvez a Coca-Cola seja uma consequência e não a causa.

Estes só se lembraram dos refrigerantes depois de os verem no Swan com quem passámos as eclusas.

O G. é bastante mais con do que o M. Já o R. não. É menos. Talvez na verdade a relação entre os refrigerantes e a connerie seja ténue ou inexistente.

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O mar é demasiado tolerante, já por aqui há uns anos o escrevi. É provavelmente isso que faz a sua grandeza.

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Para a travessia do Canal comprei uma caixa daqueles hamburguers horríveis. O ambiente a bordo era péssimo e a minha vontade de cozinhar nula. Temos de dar de comer ao piloto e aos linehandlers, mas não temos de lhes dar alta gastronomia. Além de que já recebi de um piloto um elogio que cobre todas as faltas de vontade, birras da tripulação e quejandos. "Esta foi a melhor refeição que me deram", disse o senhor quando atravessei num barco de que nem sequer era o skipper. Ia como linehandler, por causa dos cento e vinte dólares. Mas propus-me fazer o almoço e o armador - de quem não recordo nome, cara ou sequer o barco - agradeceu-me e foi assim. Improvisei uma porcaria qualquer e por sorte saiu bem.

Desta vez não estava com muita vontade de repetir a proeza, mas pelo sim pelo não desfiz os hamburguers e pus a carne a marinar em rum.

Quem acabou por fazer o almoço foi R. Uma feijoada tão boa quanto gargantuesca. Ontem comemos parte do resto ao almoço e ainda há para uma refeição. Se não for deitada fora, claro.

De maneira a carne ficou no rum ou este naquela dois dias. Hoje acrescentei pimenta, os sublimes cominho e paprika do marroquino do talho de La Línea, cebola picada e um pouco de curcuma, para equilibrar.

Com isto recheei dois pimentos verdes e duas courgettes que estavam na rede há pelo menos metade de uma eternidade. Cortei um bom pedaço de gengibre às rodelas, quatro alhos inteiros, azeite quanto basta e mandei tudo para o forno.

Ficou delicioso. Isto com boa carne e um humor melhor do que o meu agora vai tornar-se um standard da casa.

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Revi P., o meu agente no Panamá. Meu e de quarenta mil outros, claro. Apreciamo-nos mutuamente. Uma quase-amizade correspondida. Está velho. Teve uma infecção séria no pé e foi operado. Já não parece uma personagem de John le Carré mas continua um homem bonito, com um sorriso e um sentido de humor irresistíveis.

Espero voltar a vê-lo. É um dos laços que tenho no Panamá e mais uma prova - já há tantas... - de que nem tudo é mau nesta terra.

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Hoje apanhei dois bonitos. Tinha duas linhas fora, coisa que raramente faço. Mas queria mesmo apanhar um peixe, fosse ele qual fosse, para mostrar aos dois idiotas (isto é injusto. O R. está longe de ser idiota. Comporta-se como se fosse, o que é diferente) que me servem de tripulantes que sim, no mar apanha-se peixe e pode-se comer.

As discussões por causa da comida a bordo foram-se repetindo até que em Panamá fui às compras e trouxe tudo o que me pediram. Metade há-de ir fora, claro. Mas pelo menos ficaram satisfeitos. Não consigo perceber qual o prazer ou a vantagem que retiram de deitar comida fora, mas enfim. (Isto tão pouco é verdade. Percebo perfeitamente. O "abondanza" do Rei de Marrocos na Villa Sterne, uma versão rasca de potlatch - com a vantagem acrescida de que quem paga não são eles. Mas isso é um pormenor). Não sabem e eu não consigo explicar-lhes que no mar come-se o que há. A escolha é limitada pelo armazenamento (neste caso não se aplica, temos um camarote vazio) e pela capacidade de refrigeração. O nosso congelador não congela e só funciona bem quando vamos a motor. À vela consome demasiada energia. Temos montes de fruta e vegetais numa rede no salão, mas com estas temperaturas também têm a duração limitada. Ou seja: aquilo que eu pensava ser um trajecto à base de legumes, peixe e fruta transformou-se numa orgia de carnes, queijo e fiambre (ainda por cima merdosos) e Coca-cola, Sprite, Seven-Up. Nunca me tinha pedido refrigerantes, mas durante a travessia do Canal viram o barco ao lado bebê-los e hey, presto!, a ideia aterrou-lhes no cerebelo. (Mesmo assim estão longe de M., que bebia Coca-cola ao pequeno-almoço).

Não sou um gajo frugal (isto é um understatement) mas não preciso de alimentar o ego ou a auto-imagem com desperdícios.

Enfim, seja como for temos dois bonitos para comer. Cozidos, fritos e no forno com bacon, tomate, cebola e alho.

Cozido talvez não. Bonito não é grande coisa, seja como for. Mas alguma forma se há-de arranjar. Por agora estão no sal. Amanhã se verá.

Vou dormir.

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O dia está cinzento e o vento muito mais forte do que é habitual - onze nós (pela proa, claro). Calha bem. Ontem quase apanhei um escaldão e tenho a pele a arder.

Quem dera ardesse por outras razões.

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Continuo a motor. Quero chegar depressa. Para bolinar está perfeito porque não há mar. O S.B. chamar-lhe-ia um figo. Eu também, se estivesse para aí voltado. Não estou: o objectivo é chegar, não é navegar.

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Três homens num bote. Ou um adolescente e dois homens num bote. Adolescente mimado e estúpido, ainda por cima.

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Ao princípio R. parecia um gajo porreiro. Na verdade não passa de um gajo, nem porreiro nem antes pelo contrário. Pelo menos pôs a desconfiança e a falta de educação de lado e comporta-se normalmente. G. continua a víbora que sempre foi. Basta-me pensar nele para querer transformar-me naqueles animais que são inimigos atávicos das cobras e as mordem e partem em fanicos. Pensar que vou ter de o aturar mais um mês esgota-me.

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Que manhã tão linda. Navego com uma térmica fraquinha, ajudado pela corrente. Vamos à bolina cerrada, mas assim é uma sorte. Mar chão, o sol acaba de nascer e já aquece, mas não demasiado. O SB marulha suavemente, como se trocasse segredos com o mar.

Tudo é calma, luxo e voluptuosidade.

Daqui a pouco começo as tarefas do quarto das seis às dez: lavar a loiça da noite, limpar cockpit e salão, verificar fundos e motor. Quando sair de quarto faço o almoço : bonito cozido.

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Acabei por não fazer o almoço. R. antecipou-se e fez uma salada com feijão branco e salsichas frescas que ficou uma delícia.

Em contrapartida fui agraciado com uma daquelas vistas que me fazem adorar o Pacífico. Aproximadamente uma centena de golfinhos a outros tantos metros do barco. Meia dúzia deles faziam piruetas como se estivessem a treinar para um espectáculo num parque de diversões aquático. A dois metros do painel da popa e um de profundidade uma manta gigante. Fazia de envergadura quase metade da boca do SB.

A manta é um peixe lindo, majestoso. Uma vez nadei pertíssimo de uma, na Pool em Canouan. E vi várias vezes algumas a voar fora de água (voar devia levar aspas).

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Reescrevo isto em El Salvador, Barillas Marina. O essencial está correcto. Deveria acrescentar alguns pormenores. Não o faço. Prefiro falar de Barillas.

Não é bem uma marina. É bóias num rio e um parque manicurado para a casta possidente local. Os funcionários são adoráveis, simpáticos, sorridentes e prestáveis. Hoje rdeixaram-me usar os computadores do escritório  - já não têm a sala de computadores porque o wifi é ubiquo  -. Mangal por todo o lado e terrenos magnificamente tratados no meio (onde estamos, naturalmente).

Sou pouco fã destes parques para ricos mas às vezes sabem bem.