4.6.16

Como o dia e a noite

De repente o ar torna-se ligeiro.

"Já quase no fim: uma mulher envolta em panos
e véus escuros veio e prometeu o vento.
E fez - plantou
na areia duas grandes ventoinhas, ..."

(Manuel Gusmão, in  Pequeno Tratado das Figuras, "Filmar o Vento")

Temos aqui a base de um diálogo "profícuo", como dizem as televisões.

"He desplegado mi orfandad
sobre la mesa, como un mapa.
Dibujé el itinerario
hacia mi lugar al vento.
Los que llegan no me encuentran.
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para trasmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacios".

Alejandra Pizarnik, in Antologia Poética, ed. Correio dos Navios, "Fiesta"

Deixemo-nos de diálogos profícuos. Se fosse um céptico ou um nihilista diria que "diálogo profícuo" é um oxímoro. Não sou. É.

"Mon verre s'est brisé comme un éclat de rire"


"Ouvrez-moi cette porte où je frappe en pleurant.
La vie est variable aussi bien que l'Euripe"

Apollinaire,  in Alcools

Voltemos a esta noite que me espera, impaciente. Está quase a acabar. O sol nasce e eu deito-me, como se fosse um vampiro. Mas antes disso bebo música e Mount Gay alternadamente. É preciso que a luz chegue, que o escuro parta como por um beijo teu. Os teus beijos partem a escuridão, estilhaçam-na. Pelo menos é assim que me lembro deles: luminosos. Todos os beijos deviam ser assim, mas não são. Alguns músicos sabem-no, outros ensinam-no. Não os cito: demasiados ficariam de fora. Mas é assim: a música e o amor são uma luta contra a escuridão.

Que perdemos, claro. Mas isso é outra história, outra escuridão.

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Durante muitos anos para mim "noite" era "ausência de luz". Redescubro hoje esta noite com luz, música, rum e ausência de horas. De séculos: oiço Hildegarde von Bingen e descubro porque gosto tanto dela: a música foi composta ontem, não foi?

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Deixemo-nos de histórias. Passemos às coisas sérias. Só há duas: corpos e solidões. Tudo o resto - corpos ausentes ou meio presentes, meias solidões ou solidões fingidas - são simulacros; ersatz, como se dizia quando eu era criança e me escondia nas livrarias para ler bandas desenhadas, proibidas em casa. Ersatz era palavra de casa, não de banda desenhada. Percebes o que eu quero dizer? Eu não. Tens sorte e eu não tenho. Por exemplo: não sou religioso. Sou ateu como meço um metro e setenta e seis, sou míope e gosto de música sacra: fatalidade e escolha, alternadamente. Por vezes percebo o que digo; outras não. Alternadamente, claro.

Como o dia e a noite.