4.6.16

Diário de Bordos - Lisboa, sempre. 04-06-2016

Provavelmente esta mistura de rum Mount Gay e Keith Jarrett (e Gismonti et al.) não é específica a Lisboa. ("Provavelmente" é retórica. Sei perfeitamente que não é).

Que fará então desta noite a especificidade? Cheguei fará hoje mais logo uma semana. Fui à Feira do Livro, da qual só gosto quando tenho dinheiro para comprar livros; ao Tati ouvir o Gonçalo Marques e companhia, aos Poetas do Povo onde descobri um poeta que não conhecia (chama-se Rui Costa e é de ler); provei excelentes vinhos portugueses (provei é um understatement, seja Deus louvado e agraciado); apanhei (hoje) uma seca com uma senhora fotógrafa que falou muito, sem parar (uma das características e sinais distintivos de um bom fotógrafo é não gostar de falar). Falava para si própria e tinha uma tão infinita quanto massacrável capacidade de se ouvir; assisti a um espectáculo de poesia e música (esta a cargo de Carlos Barretto, que é um bom contrabaixo em qualquer parte do mundo e em Lisboa é melhor ainda porque Lisboa tem esta característica: magnifica o que é bom e apaga o que não interessa). A poesia lida por André Gago, António Caeiro e José Anjos, que por vezes também percussiona tão bem como escreve e diz. E tudo isto acaba com rum Mount Gay e (agora) Albert Ayler, ou Eric Dolphy, ou o que vier.

Não ter dinheiro é muito chato, claro. Hoje um vendedor da Cais abordou-me na Baixa. Disse-lhe que não e ele perguntou-me "mas pode pelo menos falar comigo?" "Não". Não, meu caro, não posso nem quero porque não quero ter de explicar-te que provavelmente tenho menos dinheiro no bolso do que tu e não quero dizer isso a um gajo qualquer na rua e sei que se calhar no fundo tenho mais sorte do que tu - e isso tão pouco é assunto de conversa, pelo menos agora -. Mas não ter dinheiro é passageiro, é como uma frente fria, um squall, um aguaceiro, uma depressão mais ou menos cavada, uma foda má. Não é como ouvir Dolphy ou Ayler ou Gismonti ou Jarrett que estão sempre lá; basta querer.

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Para não falar em Hildegarde von Bingen, claro.

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Pela primeira vez na vida tenho a impressão de que não vou ter de pagar o quão bem tudo isto se anuncia. Assustador, não é? Prefiro pagar, ainda que com atraso.

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O rum Mount Gay é bom; honesto, frontal, não engana ninguém. Mas basta uma tarde ou duas na Wine Up para me lembrar de que o que me corre nas veias é vinho. Rum é paisagem.