10.7.16

Utopia, vida

Ontem fui ouvir uma palestra de Richard Kearney, no quadro da Utopia 500, uma conferência organizada pela European Society of Utopian Studies, de que a presidente é Fátima Vieira, amiga de amigo (ou seja, duplamente amiga) a quem aqui deixo um tão gigantesco como sentido Obrigado Fátima!

Tomei algumas notas, das quais saíram as habituais mesclas de boas ideias maltratadas por um cérebro primitivo, troglodita, mais à vontade no mar do que numa sala de conferências.

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Juntar dois conceitos velhos e provados: "traduttore tradittore" e "comunicar é traduzir". Traduzimo-nos e traímo-nos. A comunicação é impossível: traduzimos o que somos, mas essa tradução é incompleta. Nómadas da nossa língua andamos sozinhos no deserto. "Eu sou isto" é uma utopia, a menos que aceitemos "isto" parcialmente. "Sou isto" é a parte traduzível do que sou, não é (nunca será) o todo.

E se no lugar do verbo ser usarmos o verbo pensar a proposição continua verdadeira: nunca conseguirei traduzir o que penso, por muito bem que escreva ou pense. Há em tudo o que fazemos, somos, pensamos uma parte intraduzível. De certa forma a vida é uma utopia.

"Eppur si vive" deve ser a nossa máxima, o nosso cri de ralliement. Apesar de tudo estamos vivos: o optimismo tem a realidade (a história, expurgadas as conotações perniciosas) a seu favor.

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"A utopia não é possível sem uma troca de memórias"; "A utopia é a tensão entre o difícil e o impossível" (esta de memória, talvez não seja verbatim); "todas as nossas acções estão enformadas pela narrativa"...

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A utopia está para a vida como os pulmões para o corpo: é por ela que o oxigénio chega ao sistema.

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De certa forma todas as ideologias são utópicas: nenhuma se concretiza a cem por cento. Felizmente.

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The Guest Book Project. Quem me conhece bem conhece o meu cepticismo fundamental (alguns diriam "básico") a respeito de iniciativas para mudar o mundo. A única coisa que o vence é a estética. Esta ideia é linda.