2.8.16

Diário de Bordos - Cartagena, Murcia, Espanha, 02-08-2016

Esta coisa do wifi tem que se lhe diga. Fia mais fino, por assim dizer: não basta tê-lo; é preciso que funcione e chegue ao sítio onde queremos sentar-nos.

Felizmente no café La Taona todas as condições estão preenchidas, desde que o utilizador do sistema não se queira sentar na esplanada - não quero - e tenha um computador que não amue - não tenho. O meu wifi (meu por oposição ao do café) faz regularmente birras e deixa de funcionar sem quê nem porquê.

Que se lixe o wifi, para dizer a verdade. É um não-problema, um problema de homem branco, o que quiserem. Por mim, estou-me nas tintas. Escrevo, copio para Word, reinicio o computador as vezes que forem necessárias (às vezes são muitas) e ecco, o Don Vivo continua, o Facebook não escapa, o Youtube debita (não é frequente, mas enfim. Seria triste reconhecer em público que tenho poucos mails, ninguém me escreve, como se eu fosse um coronel à espera de carcanhol.

Não sou coronel).

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De que Cartagena falas?, pergunta-me quem vem de outros hemisférios. Da que um dia atravessei a correr e não daquela em que passava os dias sentado a beber café e a ler Gabriel Garcia Marquez. Tenho duas Cartagenas e gosto de ambas, se bem prefira o nome de uma delas: Cartagena de Indias é um erro sublime e faz sonhar como todos os erros sublimes.

Percorri uma e deixei que a outra me percorresse, mero num navio afundado, demasiado grande para sair do camarote onde entrou ainda novo. Ou uma versão nómada do Nero Wolfe, imagem aliciante s'il en est.

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Amanhã largamos cedo; trata-se de avançar o mais possível. Quinta-feira o tempo não vai estar grande coisa.

I wish you were here é uma grande canção, não é?

"So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skys from pain.
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?"

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O café La Taona tem inúmeras vantagens. As tapas são a excepção: a única que se safa é a tortilla. Felizmente está ao nível da que aprendi a fazer há uns anos e é difícil de igualar. Esta não anda nada longe (não é difícil: basta confitar as batatas em vez de as fritar e não deixar secar demasiado os ovos).

Mas as vantagens compensam: é bonito, está vazio e fica entre a Filmoteca de Cartagena, que lhe dá uma clientela (pelo menos quando a há) vagamente intelectual, diferente da que polui o resto da rua e um palácio de que só entrevi uma sala mas deve ser lindo.

Enfim, sou injusto. Poluir é uma deturpação quase involuntária de povoar. Escreve-se por sons, não é?

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Há mais no café La Taona do que aquilo que se vê, mas agora é tarde para desenvolver isto tudo. Fica para depois, como a morte ou a loucura (de que a história do palácio ao lado está cheia).

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Livro de Lugares? Cada coisa tem o seu lugar, cada lugar a sua coisa. Cartagena seria o cenário dos amores.

No plural: os que sabemos e os que ignoramos.

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As religiões têm humor? Com excepção do Zen e do politeísmo grego (não deve ser o único) penso que não. Se tiverem não são religiões.

O cepticismo é de direita, a crença de esquerda? Tópico a desenvolver quando tiver acabado o sabão.