19.9.16

Irritação

Era bonita. Rosto juvenil, sardento. Tinha cinquenta anos mas vista de cima parecia ter vinte. De pé dava-se-lhe a idade correcta e dizia-se "está bem conservada" enquanto se acenava aprovadoramente com a cabeça.  "Se" eram sobretudo - mas não exclusivamente, longe disso - os meus colegas de equipa  (eu era jogador de futebol, nessa altura). Encontrámo-nos na Tailândia: tínhamos sido convidados para uma série de jogos amicais com clubes de vários países asiáticos. Nesse ano Portugal tinha ganho o Mundial e nenhuma equipa portuguesa escapava aos mais variados convites. Éramos olhados como semi-deuses, apesar de não passarmos de uma obscura colectividade local da terceira divisão.

Eu tinha vinte anos - era um bocadinho mais novo do que o filho dela - mas fui adoptado inicialmente como amante. Mais tarde passei a namorado, depois a namorado "oficial".

Um dia acordámos - estávamos juntos havia dois anos - e disse-me "tu irritas-me". Fizemos amor, como todas as manhãs. Tinha um orgasmo bonito. Rejuvenescia. Parecia ter vinte anos.

Fomos tomar o pequeno-almoço. "Tens de te ir embora". Olhou-me bem nos olhos e continuou: "agora, por favor".