7.9.16

Ser, dar

1

Em caso de dúvida começa-se pela metafísica. Ontologia. Quem sou eu e para que sirvo? De onde vem esta dúvida que me define e aprisiona há tantos anos? Porque hesito entre a cerveja e o vinho? Um papagaio sente o mesmo que eu face ao vazio dos dias? Vai chover amanhã?

A vantagem da ontologia é esta: saímos rapidamente dos limites estreitos do ser e acaba-se na meteorologia. Isto se o jantar tiver sido bom: não há ser que resista a um bacalhau insonso, por exemplo. Nem chuva que não seja agradável se ao lado do nosso um outro ser- feminino no meu caso, mas isto é uma escolha pessoal (diria fisiológica mais do que ontológica) - um outro ser.

Deixa-me dizer-te que de Heidegger não percebo nada. Nada. Mas percebo de olhar para a Lua nas sizígias, esperar pela chuva, descobrir num corpo o que nele leva à alma.

"Há uma ferida em todas as coisas. É por aí que a luz entra", canta esse grande especialista em feridas. Também percebo de feridas. Estou coberto delas, da cabeça aos pés. Sou uma ferida ambulante. A chuva, a Lua, o mar e o vento, seu irmão gémeo, o vinho e o rum não mas curam mas lavam-mas.


2

O processo é antigo e conhecido: estende uma mão. Estende-a de novo. Estende-a outra vez e outra e outra e outra. Estende-a sempre. Chegarás aos limites do universo, que são aproximadamente os teus. És o mundo e é nele que recebes o corpo que te apazigua ou faz sofrer. Nele se instalarão a presença ou a ausência.  És o mundo; és o que és, o que serás e foste. Tens o tempo contigo. Estende a mão: é nela que virá a resposta.

Olha para fora, para amanhã,  para o dia que nasce. Lembra-te: és uma dúvida, um soluço do tempo. É tudo o que és, o mundo.

Nada és, mas sem ti nada é. Estende o braço. Dá-lhe a mão.

Dá-te. És o que dás, não o que recebes ou pensas, sonhas, fazes.

Dá-te inteiro, como és, todo de uma vez, sempre e para sempre. Não há fracções de mundo: não há partes de ti. "És todo em cada coisa". Dá-te como és.

Nada sobrará de ti se não o que de ti deste.


(Para a H., filha e ilha)