9.10.16

Diário de Bordos - Lisboa, 09-10-2016

Ontem a minha bicicleta Vitus Turbo bebeu de mais. Não há volta a dar-lhe nem outra forma de dizer as coisas: a bicicleta bebeu de mais e no caminho para casa caiu duas vezes. Como eu estava em cima dela caí também, claro. Felizmente, para além do ego não houve nada magoado.

Hoje vai estar a pão e óleo, de castigo.

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A noite foi deliciosa, apesar dessa história do excesso Turbístico. Fui jantar com três maravilhosas senhoras a um restaurante moçambicano de Alfama onde comi caril de caranguejo, matapa e caril de camarão e badgis. Tudo delicioso. A conversa fluiu leve e alegre.

Mal sabia eu que lá fora, amarrada a um cano de água, a Vitus estava a enfrascar-se. Não lhe quero mal. Como dizia uma senhora chamada Rose (de Pansec, algures na Suíça profunda - ou França? Não sei) temos o corpo cheio de pequenos diabos. Há que afogá-los (isto digo eu. A Rose tinha um remédio diferente, que passava por igrejas e padres e orações. Eu não. Afogo-os e pronto. Ecco! Visivelmente a minha bem-amada burra partilha os meus remédios anti-demozinhos).

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Isto tudo aconteceu depois da apresentação de um livro na Barraca. O livro era esplêndido. Uma das senhoras que depois veio jantar comigo diz que o autor é o maior poeta português vivo. Não conheço todos os poetas portugueses vivos e não posso fazer essa comparação. Mas que é um dos meus preferidos é, sem dúvida e de longe. E a senhora percebe de literatura como niguém neste país (e escreve poesia também, de resto).

Ou seja: um grande fim de dia. O bar da Barraca traz-me sempre à memória os estabelecimentos da Rússia Soviética, em mais pequeno. Tem deles as cores e a atmosfera. Quando cheguei à Rússia tinha dezanove anos. Fiquei quatro meses no primeiro porto - Nakhodka, para quem estiver interessado - e um no segundo - Tuapse, idem -.

Em Nakhodka apaixonei-me perdidamente por uma jovem senhora, lindíssima. O superlativo não é exagero. Era linda de fazer calar os tais estabelecimentos (que ela frequentava a contragosto. Quem a levava era eu, para beber vodka. Ela criticava-me. Achava que eu bebia muito). Quando entrávamos num - tinham duas portas, todos, porque era inverno e aquilo era frio - as pessoas olhavam para ela e calavam-se. Era actriz de teatro e recitava-me poemas de Pushkin em russo. Não percebia uma palavra do que ela dizia, mas amava-a abandonadamente.

Trinta e quatro anos depois veio visitar-me a Antigua. Ainda era muito bonita, mas não me recitava poesia e eu já não a amava. Vive na Itália e deixou o teatro. A Barraca tem o ambiente escuro e soturno dos cafés soviéticos, mas em mais bonito. E a poesia é melhor e percebo-a.

É curioso ver uma pessoa que amámos trinta e quatro anos antes desembarcar de novo na nossa vida. Enfim, de novo não é a expressão correcta: nesses anos todos tive três ou quatro vidas, no mínimo. Mas ela chegou e lembrava-se bem de mim e de muitos episódios que eu ja esquecera. E continuou a dizer-me que bebia muito, eu. Ela não.

Bom, Vicky: quem bebeu ontem foi a bicicleta. não fui eu. O Tom Waits tem um problema semelhante com o piano. Talvez ele devesse vir ao bar da Barraca tocar.

Em Tuapse também me apaixonei, mas menos, muito menos. Desta lembro-me dos olhos verdes e dos cabelos morenos; o nome esqueci. Também era bonita, mas menos do que a Vicky.

Tudo isto porque fui à Barraca e dei barraca na bicicleta. Duas quedas: uma no princípio do trajecto e outra quase no fim. Exactamente as mesmas circunstâncias: a andar devagar, muito devagar. Quase parado. A Vitus aguenta-se mal a baixas velocidades. É uma burra de corrida, daquelas que só está à vontade numa estrada e na pirisca. Na cidade, à noite e com uns copos vai-se abaixo, coitada.

Gosto do bar da Barraca porque me faz lembrar uma data de coisas.