30.11.16

Deixa-me explicar-te

Bom, deixa-me então explicar-te.

Nunca sei por onde começar. As palavras chegam aos molhos, impossível pegar-lhes uma a uma: dinheiro, chuva, solidão, rum. Acabei por ir comprar uma garrafa de rum, mas devia ter começado pelo silêncio, não é?

Ou pela chuva: voltei devagar para bordo, a bicicleta não tem guarda-lamas e de qualquer forma não estava com pressa, ia a pensar se comprava o rum ou não; depois meteu-se o dinheiro, com o rum e o vinho no Catch foi-se o ganho do dia, uma porra. A solidão tem um preço.

Chuva, dinheiro, solidão, desejo, palavras que vêm por aí fora descambadas, por muito devagar que um gajo pedale elas vêm destrambelhadas e tu a dizeres-lhes não quero nada com vocês, vão para a puta que vos pariu e elas nada, catapumba, aí vêm feitas chuva ou rum. Isto é: saltam-te para o colo sem tu saberes por que raio de carga de água não te obedecem.

Nada te obedece, não é? A chuva: cai quando quer; as palavras: não te largam; o dinheiro: deixa-te sem dizer água vai; a solidão; a liberdade; o vento. Essas merdas todas de que é feito o dia e se lhes juntarmos mais uns vislumbres disto e daquilo as noites também: tu, esta porra desta vontade de parar e esta impossibilidade de parar, como se entre ti e a vida houvesse outra merda qualquer e não há, só há a vida, a chuva, o dinheiro, a solidão, as palavras, uma bicicleta que volta devagar para casa, como se viesse sozinha e eu pendurado nela como por vezes me pendurava em ti, lembras-te?, a pedalar a pedalar a pedalar devagar, devagar, devagar para que nunca mais acabasse o pedalar.

Nunca mais acabou, verdade seja dita: estou para aqui numa rua de merda de uma cidade de merda e pedalo contigo em mim como pedalava quando estava em ti.

Penso numa fotografia que tirei há muitos anos em Inhambane, de maneira fui comprar uma garrafa de Flor de Caña, quatro anos, é a mais barata da loja e verdade seja dita não é mau, o rum. Sobretudo se não tiveres massa para o Mount Gay. Quero dizer: isto é uma metáfora para a vida. Pedalar devagar, amar devagar, gastar devagar e agora escrever de fugida, as palavras não te largam devagar.

Silêncio devagar.

Coitadas. Enganaste-as, não é? Como se tivesses alguma coisa a dizer.

Imagina as ruas lisas, direitas, sem princípio nem fim como o tempo, os carros a passar sem parar, vummmm, vummmm, vummmm, chuva (não chove; é água da chuva que está nas ruas) e tu a pedalar devagar.

Devagar. Devagar. Nada de precipitações. Olha para esta rua interminável, imagina que vês seja o que for como se fosse dia e diz-me: tens vontade de te precipitar?

Tenho.

(Para a R.)