4.12.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 03-12-2016

Fiz finalmente o chilli con carne. Ficou bom: pelo menos tinha chillies, muitos e variados. Um dos tripulantes não conseguiu comê-lo por demasiado picante. Os outros gostaram. Foi um jantar bastante agradável. Falei de mais e eles também, o que sempre equilibra. Excepto o que não conseguiu comer: não abriu a boca o jantar todo. Não sei se por demasiado picada se por não ter nada a dizer.

Ao todo foi um bom dia. Confirmei a minha ideia de que "os americanos não sabem comer" é tão falso como "a terra é plana" ou "na América quem não tem dinheiro morre na rua". De manhã fui ao "mercado verde" (entre aspas porque a tradução é literal) de West Palm. Acreditem se quiserem, mas comprei meio Époisses, uma baguette e um pão com azeitonas (meio porque o preço era proibitivo).  Para quem não sabe: Époisses é um queijo francês da Borgonha. Se alguém um dia precisar de uma prova da existência de Deus (eu não preciso; sei que não existe, mas isso não é assunto que me preocupe particularmente) deve comprar um Époisses affiné au marc de Bourgogne. Não era o caso do que hoje comprei (felizmente, porque se fosse não teria podido comprar nem metade, a julgar pelo preço deste) mas um Époisses é um Époisses tal como eu sou marinheiro seja a embarcação à vela, a motor ou a remos. Comi-o no mercado, sentado no canteiro de uma árvore cujo nome desconheço mas que dava sombra, coisa bastante necessária por estas bandas. Depois fui beber um copo de vinho ao Palm Sugar, não fosse o diabo tecê-las. A posteriori é melhor do que numquam.

A seguir vim para bordo fazer o chilli. Comecei por fritar bacon, na gordura resultante refoguei os pimentos, os chillies, as cebolas, a carne (bifes que de tão ecológicos davam para vegans; estavam a preço de saldo e cortei-os aos bocadinhos). Tudo isto separadamente. Depois juntei tudo na panela, mai-los tomates e montes de salsa, os orégãos, paprika (fumada, comprada no mercado no stand de um marroquino) e cominhos comprados ao mesmo marroquino sorridente. Deixei cozer quatro horas. A inovação foram os cominhos: usei sementes em vez de moídos. Esta mutação vai ser adaptada.

Amanhã há outro mercado e é maior. Vou ter de lá ir, claro. Ainda por cima tem a vantagem de ser mais longe, qualidade não despicienda porque a) controla o peso do que trago, ou seja b) o respectivo custo e c) me faz ir mais longe.

Na bicicleta, quero dizer. Não sei quanto tempo se pode resistir sem carta de condução aqui.

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De maneira é isto: um gajo espera e desespera e de vez em quando deixa de desesperar mas não de esperar.

Não seria mau ver o fim da espera, com ou sem desespero.