11.1.17

Ir às compras

Há compras de que gosto: comida, livros, discos; e outras que detesto: roupa, sapatos, óculos.

Gosto de ir aos mercados de rua ou cobertos de manhã cedo. Começa pelo cheiro, por ver as pessoas que só conheço de as ver ali. Falar com os vendedores, trocar uma laracha ou duas; ir sem ideias ou com elas vagas, esqueletos de menus e vontades. Não comparo preços, sou péssimo nisso. Mas comparo tudo o resto: a frescura, o tamanho, a simpatia do vendedor. Ando às voltas, passo duas e três vezes por cada stand, às vezes cedo a um impulso. Raramente. Vejo as cores. Há muitos anos trabalhei uns meses em mercados (fazia dois por semana), sei a importância da composição da banca.

Por esta altura já imagino o que vou fazer: sopa de tomate,  caldo verde, sopa fria de pera-abacate se estivermos no Verão, alho-porro. Faço agora as voltas mais focado. Escolho legumes que se mantenham muito tempo no frigorífico e se deixem cozinhar devagar. Cozinhar devagar. Ver as especiarias, por muito cheia delas que esteja a despensa.

Da ida ao mercado faz inevitavelmente parte um copo de vinho ou uma cerveja. Devagar. Roubar tempo ao tempo. Falar com um vendedor ou um cliente que por ali faça o mesmo ao tempo. Trazer as coisas para casa, arrumá-las, aperceber-me do que me esqueci. 

Ver dos planos quais os que são concretizáveis e quando. Abrir uma das garrafas de vinho que comprei, prová-lo, fazer notas mentais sobre os vendedores. Serão esquecidas até à quinquagésima vez, mas não faz mal. Lembrar-me dos cheiros.

Cozinhar devagar, dormir a sesta, ler, amar se for caso disso. 

Repetir aquando do próximo dia de mercado.