16.5.17

Diário de Bordos - No mar, entre Horta e Cádiz, 09 a 16-05-2017

Sol e vento. O mar está feliz. Ontem tivemos de novo direito a um arraialzinho, só para não esquecermos como é. Hoje a coisa compôs-se; amanhã, se as previsões estiverem correctas, vai deixar de haver vento. Vou passar perto de Sagres para ter net. O problema como sempre é o Levante no Estreito. Mais uma vez segundo as previsões vai durar até quinta: ou seja, arrisco-me a ter de passar dois ou três dias em Vila Real, Cádiz ou Barbate à espera. É uma chatice de todos os pontos de vista: quero chegar a Atenas depressa.

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Ainda está frio, um frio estúpido, inconveniente, maçador. Mas pelo menos uma coisa melhorou: agora tenho frio quando me dispo. Já não tenho calor como tinha quando as roupas estavam encharcadas.

Já o mar continua caótico e desorganizado.

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A verdade é que a viagem está a correr que não se dá por ela. Ainda ontem largámos de Pointe-à-Pitre e há bocadinho da Horta. Às vezes parece que só daqui a um século chegaremos a Atenas, mas não. Amanhã ou depois de amanhã, vá lá. E até chegarmos ainda temos umas belas portas para atravessar: os estreitos de Gibraltar e de Messina, o canal de Corinto... Vai ser um instante. E depois Genève, Porto, Lisboa para me encontrar com o Celso e com a Andréa. Vai ser um bom Verão, vai sim senhor.

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Chamada à ponte. K. quer rizar mas ainda não aprendeu a fazê-lo sozinho. Rizo na mesma: o cagaço é sempre vencedor. Dispensa razão e justificação.

De qualquer forma estava acordado, por causa justamente da rajada que o levou a chamar-me.

K. é fraquinho tripulante, mas enfim. A verdade é que estou mais do que compensado com o N.

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Pelo menos temos o mar do vento: arrumadinho, organizado, certo. E o vento também, vá lá. Mas da nebulosidade e da temperatura mais vale não falar. Mudam segundo a segundo.

A meteorologia é como a psicanálise: há sempre uma explicação para tudo. Apareceram cirrostratos vindos do nada? Isso pode querer dizer que a) amanhã vem uma depressão; b) amanhã vem uma alta pressão; c) amanhã fica tudo na mesma. Qual das opções escolher? As três, claro. Uma delas estará certa e a meteorologia explicará porquê. O mesmo aconteceria com qualquer das outras.

Isto dito: não nos podemos queixar. O CR avança bem, quando não há núvens aquece num instante, a roupa e o camarote estão secos, o mar contente. Depois de amanhã estaremos perto da costa de Sagres e terei sinal para descarregar as previsões meteorológicas. Pode ser que o Levante se tenha ido deitar...

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Retratos rápidos
- E que faz ela agora?
- Oh, está bem. Encontrou um marido e deixou de precisar de andar por esse mundo a partir corações para se sustentar afectivamente.

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De todos os elementos apaixonantes da navegação a gestão dos "e se...?" (what if no original) é provavelmente o melhor, mais interessante. Navegar é gerir erros - uma regata é ganha por quem comete menos erros, não por quem navega melhor - e os "e se...?" são talvez a maior fonte de erros.

Até agora tenho baseado as minhas decisões nas previsões do Passage Weather, que se têm vindo a revelar quase correctas. Por vezes um desfasamento no tempo, outras na longitude (não temos variado a latitude). Neste momento estão absolutamente erradas. Questão de tempo? De posição? Não sei. Mas posso aproar a Cadiz mantendo o plano original de passar perto da costa portuguesa para ter previsões actualizadas. Que acontece se o Levante se confirmar? E se não houver Levante? E se o Levante entrar mas mais tarde do que a previsão que eu tenho? E se, se, se?

Tenho gasóleo que chegue para chegar a Gib e daqui a menos de doze horas terei previsões actualizadas. Até lá, construo cenários sabendo que não passam disso mesmo: cenários. Como dizem os ingleses, é preciso um plano para se poder não o seguir.

A outra coisa apaixonante (enfim, pelo menos para mim) da navegação é ser uma actividade que implica todos os sentidos.

E ainda há quem ache um exagero esta minha comparação permanente da navegação e do amor...

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Sendo que uma andorinha ferida, magoada, só, triste continua a ser uma andorinha. A tristeza, a dor, a solidão não passam de epifenómenos, estados passageiros, marginais, quase secundários.

O importante, o centro é o ser-se. Um pouco como estar no mar: és o centro de um círculo para lá do qual só há hipóteses, cenários, ilusões.

Sê como uma mina é uma mina: por mais que se escave nunca dela se sai. Antes pelo contrário: é cada vez mais mina.

Ama como se nela cavasses, vive, sonha. Navega. O mar é a mais infinita mina. Navega. A tristeza, a dor, a solidão desfazem-se como a esteira que deixas. Nada são.

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Passeia pelo amanhã como pelo ontem: ambos são feitos hoje.

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O mar é o prolongamento infinito de ti, ser minúsculo sem princípio nem fim.

O mar e as palavras, claro.
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Pensa nesse corpo que te falta. Pensa no mar ao teu lado.

Vês?

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É-se marinheiro como se é cego de nascença: por fatalidade e não por escolha.

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Só o mar tem esta infinita capacidade de dar sentido à tristeza, de lhe demonstrar a falsidade, a precariedade, a falta de fundamentos. No mar a melancolia faz parte dos sentimentos aprazíveis, é uma das formas do bem-estar.

Ser feliz e melancólico é um círculo que se fecha: um horizonte.

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O azul feliz do mar, o azul do mar feliz: o mar azul do (homem) feliz.

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Estar de quarto é uma comunhão. Deixa-se de estar numa embarcação para se estar com a embarcação. Ou para se ser a embarcação.

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Um marinheiro está ausente quando está  terra.

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É mais fácil dizer "amo-te" do que ouvir: os outros são uma prisão maior do que nós.

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Esta dor no cotovelo - que sei agora trata-se de um "cotovelo de tenista" - parece-me particularmente injusta, a mim que não olho sequer para uma raquete de ténis vai para quarenta anos.

Não, não é injusta que quero dizer. É merecida. Faz-me lembrar a dor no pé com que andei não sei quantos meses até que uma visita ao médico e quatro injecções (caríssimas e dolorosas) lhe puseram termo.

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A Lua entre o cheio e o minguante; mar chão - o vento é novo e ainda não teve tempo de se formar -; vinte toneladas de plástico lançadas a oito nós e meio contra a energia que as fazem mover-se (e que se desloca ela à mesma velocidade*); céu limpo - uns cirrus estratificados ali, dois ou três altos acolá, um cumulus perdido aqui; temperatura agradável, refrescante, excitante, revigorante; um navio que se desvia e né passa pela popa sem que eu tenha de me chatear, chamar pela rádio ou iluminar os trapis com uma lanterna. Se isto não é magia eu não sei o que magia é.

Assim de repente não me ocorrem muitas maneiras melhores de passar uma noite. Talvez uma e uma só. Talvez. Seja como for ambas são raras, duram pouco e devem ser apreciadas ao seu justo valor.

* - para os entendidos: oito a nove nos de vento real, quatorze quinze aparentes. Vamos a fazer oitos nós a vinte e cinco graus do aparente.


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A travessia do Atlântico vai acabar amanhã em Cádiz ou Barbate se lá conseguir chegar. É tudo menos garantido. Quarta-feira começa a do Mediterrâneo. De permeio, um dia de Levante. Tinha imaginado esta escala em La Linea, três ou quatro dias. Cinco dias de paragem na Horta, um calendário apertado, o vento, um barco em condições propensas à avaria alteraram-me os planos.

Planos? É como imaginar que o homem da corda bamba consegue prever para que lado ela vai andar e quanto a cada passo. Não consegue, claro. Sabe onde ela está amarrada a cada extremidade e é um pau. Isso e esperar que os nós não se desfaçam.

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Vamos a cinco nós, seis nos intervalos. Vento zero. A ideia é esperar em Cadiz que o Levante passe. A algumas milhas daqui estão alguns trinta nós de Leste. Metade disso de Oeste já me satisfaria, mas o senhor que trata dos ventos não se preocupa muito com a igualdade, a justiça e esses conceitos que quem vive em terra inventou para fingir que tem algum poder ou tempo livre.

São coisas da gente de terra nas quais não me imiscuo.

15-05-2017

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Eu se a vós fosse em nada acreditaria do que ides ler. Ou do que aqui vai escrito, melhor dizendo. Que sei eu do que lereis?