20.6.17

Cont.

Foi obviamente o fogo que nos uniu. Não o que grassava por esse país fora mas o que nos consumia.

Devia, para ser exacto, dizer "fogos", no plural. Eram muitos, exacerbados pelo calor, a ausência de vento.

Cada uma das nossas conversas fazia-me sentir numa peça de Sartre encenada pelo pior aluno da turma; o acto mais simples e anódino transformava-se numa epopeia existencial. Beber um copo de água levava-nos ao inferno. Rita Maria - o nome talvez seja falso, claro - não conseguia viver sem estar em levitação a dois metros do solo; à mais pequena questão ameaçava cair. Levei algum tempo a perceber que o objectivo de viver no ar era poder ameaçar e não o inverso: ela não ameaçava porque vivia no ar; levitava para poder cair.

Um dia propus-lhe que se alcandorasse numa coluna. Sempre tive uma admiração  sem limites pelos estilitas e a perspectiva de coabitar com uma - excluindo o problema prático do sexo - aliciava-me. Além de que deixaria, caso aceitasse, de poder cair e as ameaças ficariam assim vazias de sentido.

( Precisão: Rita Maria gostava de sexo e descia todas as noites uma hora para a ele se dedicar com empenho, carinho e técnica. Descer da coluna seria decerto mais complicado. Ou pelo menos a ela subir de novo).

Não sei. Sei apenas que viver num estado perpétuo e permanente de avaliação, repetição e clarificação de cada frase que dizíamos era esgotante, levava a um consumo exagerado de álcool e cigarros e ainda por cima era inútil: nenhum de nós mudava a sua percepção do que o outro dissera por causa das sessões de esclarecimento, como eu lhes chamava.

Daí a ideia da coluna. Santa Rita Estilita soava-me bem. Tê-la a quatro ou cinco metros em vez de dois idem. Perderia decerto as magníficas sessões quotidianas de sexo, mas isso parecia-me mal menor.