1.9.17

Diário de Bordos - Lisboa, 01-09-2017

Noite de tango no Irreal. O som é sofrível, há muitos casais que dançam para lá de bem, a atmosfera fantástica. O tango deve ter nascido assim: mais atento ao intangível do que à técnica.

Lembro-me - é inevitável - da tasca em San Telmo onde tive o privilégio de ouvir uma lição de tango que durou uma tarde e imagino que, exceptuando o tamanho, as noites de sextas e sábados de tango ali deviam ser como estas: escuras, quentes e bonitas.

Talvez aqui não haja casamentos improvisados. Não haverá de certeza. Já ninguém se casa, de qualquer forma.

Lembro-me das palavras de Rachel, professora de tango: "o tango é uma dança em que o homem manda, a mulher segue e os dois sentem".

Como será o mundo das pessoas que lutam pelo fim dos estereótipos de género, pelo fim da desigualdade, da violência, do capitalismo, da força, da injustiça, das touradas, da iniquidade, de tudo o que acham errado (E algumas coisas são, sem dúvida)?

Um mundo triste, ainda mais violento do que este, mais desigual, mais injusto. Não é acabando com as imperfeições que se alcança a perfeição. É fazendo-as anular-se.

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Amanhã vou confrontar-me com a mais horrível,  a mais injusta, a mais impossível das injustiças: a morte prematura de uma pessoa que não merecia morrer, uma mulher que a morte não merece, era bonita de mais, aérea, lunar, leve como o sorriso que nunca a largava.

A morte está-se nas tintas para a injustiça; e a vida também. Há uma dor que se vai juntar ao já largo alforje delas; e nós vamos continuar a viver e a carregá-lo. Não há mais nada a fazer se não esperar que o tempo o aligeire, no que for possível.