28.10.17

Palavras banidas

Refiro-me às areias subterrâneas daquele país inominável. O país que baniu do seu léxico uma quantidade de palavras (a começar pelo seu próprio nome). Isto é: baniu uma vasta quantidade de palavras, deixando assim os seus habitantes mudos e surdos.

Uma dessas palavras - creio que estava na vaga inicial de banimentos - foi o verbo Amar, em todas as suas conjugações. "Amo-te" integrou portanto o index de palavras banidas.

E muitas outras. Um dia juntaram-se e formaram um rio, um vertiginoso caudal invisível por baixo do deserto.

Amo-te - provavelmente, de todas as palavras banidas a que mais falta fazia - ia à cabeça daquela longa fita que ninguém via, na qual se distinguiam por vezes patinadores, como se as palavras tivessem congelado.

Isto é: de vez em quando alguém derrapa numa palavra (ou em várias).

Fechemos todos os parênteses que possamos inadvertidamente ter deixado abertos. Derrapemos impetuosamente nas palavras que não vêem a luz do Sol, o luar, o dançar leve de uma jovem, o mar. Aprendamos a viver assim, debaixo do solo num país inominável. Nós, cujo único crime consiste em insistir, usar as palavras interditas: amo-te, por exemplo. 

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