13.11.17

Rio abaixo, acima

Questão de deuses e nuvens nas quais se escondem; corpos frágeis hesitam em subir até eles. Há muito que fazer cá em baixo, dizem-se, sussurram-se. Em voz baixa para não os acordar, em voz baixa porque têm medo de se ouvir a si próprios: as palavras sobem por escadas em caracol, batem pesadamente com os pés e quando são ouvidas parecem o grito de uma multidão num estádio de futebol. Há que dizê-las baixo, não acordar os deuses, não afastar as nuvens.

Estendamos um manto de silêncio e sobre ele estendamo-nos nós, calados. Respiremos juntos, síncronos, como se de um os pulmões fossem dos dois. Olhemo-nos: é uma forma de nos escondermos. Toquemo-nos: timidamente, para não nos ferirmos.

Há que trocar feridas: as minhas pelas tuas; tempos: o meu pelo teu. Esvaiamo-nos devagar, deixemo-nos ir corrente abaixo: seixos, árvores, praias, olhos, mãos que nos acenam hesitantes. Não sabem se devem regozijar-se se entristecer-se. As páginas dissolvem-se uma a uma: tu a frente eu o verso, eu o verso tu a frente. Somos duas páginas de uma folha, mas juntos fazemos um livro que  agora parte, devagar, rio acima para as nuvens, rio abaixo para a terra.

...........
Hoje vi o anjo Gabriel. Era muito novo e loiro. Estava com a mãe, morena e pequena. Perguntei-me que lhe terá dito que ela não saiba já? Olhei-a de novo e percebi: tudo. Nada sabemos, enquanto não ouvirmos o que um anjo feito por nós tem para nos ensinar.

........
É de mistérios que convem falar. O que sabemos vale pouco. Imagina uma espiral à tua frente, desenhada por uma espada em fogo. Quem segura a espada? Quem o ensinou a desenhar no ar espirais que duram uma vida?

Todas duram, pelo menos as que são dignas desse nome: espiral é um termo nobre que designa a distância mais curta entre o que és hoje e o que sempre quiseste ser. Essa espiral é iluminada pelas chispas brancas de que ontem te falava uma fotografia de cavalos alados, desejos claros, mediterrânicos, pedras iluminadas pelo sol poente. É disso que se trata: nuvens, deuses, murmúrios sem fim nem princípio, luz. Mistérios, abismos. No quarto ao lamediterrânicas en canta - em pessoa - Hallelujah. "You don't really care for music, do you?"

Yes you do.

Havia outra: "your pain is no credential here". Avalanche. Sabíamo-las todas de cor, não era? Cantávamo-las nos intervalos do sangue que escorria pelas ruas, pelas falésias e acabávamos a dizermo-nos "That's no way to say goodbye". Todos os dias nos dizíamos adeus; mais tarde ou mais cedo aprenderíamos, não é?

Não. Nunca se aprende a descer esse longo rio em espiral para o qual olham os deuses refastelados e inúteis.