6.12.17

Diário de Bordos - Lisboa, 06-12-2017

Hoje [enfim, ontem] fui à Voz do Operário e comprei um livro, desta vez a um euro. É uma edição de bolso francesa de um livro de Henry Miller sobre os seus amigos. Pode não ser inesquecível, mas vale muito mais do que um euro. Não sei onde é que a Voz vai buscar estas pérolas. Havia também uma edição portuguesa da Creezy, de Félicien Marceau mas não o comprei nem por um euro. Marcou-me muito, quando era adolescente e ainda tenho presente o horror da tradução do Illich que de lá levei no outro dia (apesar de estar feliz como um abade a relê-lo).

Seria tão bom, se me aparecesse trabalho como aparecem livros.

Ou amigos. É sempre difícil - enfim, é impossível - um gajo avaliar-se bem. Mas nunca me esqueço de que quem tem amigos como eu tenho não pode ser completamente má pessoa.

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Vem aí o frio e enfrento este inverno como se fosse um teste. Vejo fotografias dos sítios que amo e pergunto-me se é verdadeiramente só o dinheiro que me faz ter vontade de lá estar. Não sei. A verdade é que agora arranjei a desculpa perfeita para ter de ficar aqui e vou ficar: "com a saúde não se brinca". De qualquer forma só o saberei quando tiver trabalho aqui. Até lá é uma falsa questão.

E aproveito ponho a máquina a funcionar. "Zero quilómetros", diria um vendedor de automóveis. Pata que os pôs aos vendedores mai-los quilómetros. Se isto continuar como tem vindo já fico feliz. Basta um bocadinho de cuidado e a coisa responde como um barco de regatas com os panos bem mareados, ou uma mulher contente e saciada: com um suspiro, uma doçura e um "continua" sussurrado ao ouvido. "Continua" diz-me a máquina. "Trata de mim". Trato, claro.

Não lhe peço muito em troca. Que me deixe levar a vida como gosto e não me force a desmontar nas subidas. É um bom pacto: eu trato dele e ele não me chateia. Não preciso que dure muito tempo, mas que enquanto por cá andar mo deixe fazer em paz e sossego. Uns copos, livros e um amor ou outro de vez em quando. Quando se apagar a luz que se apague de vez e para tudo, que isto de viver numa casa da qual metade dos quartos estão fechados é aborrecido.

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Amanhã vou conhecer o Alqueva. Não tarda conhecerei a terra de lés a lés e de norte a sul.