18.12.17

Gatos e vidas

Convivi muitos anos - uns catorze, mais coisa menos coisa - com uma gata com quem não falava. Ela retribuía. Partilhámos vários apartamentos e casas - a Masha, a minha então mulher e hoje amiga querida, dona do animal, e eu - sempre sem trocar uma palavra que fosse. Tratava da bicha, mudava-lhe a areia e dava-lhe de comer em silêncio. Ela não-agradecia exactamente da mesma forma, como se o silêncio fosse uma viagem de comboio com bilhete de ida e volta. Partilhávamos o espaço, o desprezo mútuo e uma pessoa que amávamos os dois e nos amava aos dois.

Assim aprendi que mais do que partilhar camas, casas de banho ou projectos de vida o maior e mais sólido sinal de amor é partilhar gatos.