14.1.18

Diário de Bordos - Lisboa, 14-01-2018

Não sei se era cenoura se miragem; prefiro esta: a miragem que andava a bailar-me à frente da vista há três meses transformou-se num oásis, finalmente. Isto é, como elegantemente dizia um amigo meu "só conta quando está lá dentro" (referia-se ao futebol, apresso-me a esclarecer). Mas deixou de ser uma miragem, isso é seguro. Agora resta-me, já que ando pelas analogias exóticas, lembrar-me do provérbio chinês segundo o qual "metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa". Não fiz as contas, mas vale a analogia. Estes últimos li são simultaneamente mais leves e mais pesados, mais curtos e mais longos, a ansiedade muda de cor (e de advérbio: quando? passa a ainda? ou tanto?)

Tudo muda de cor, na verdade: o preto transforma-se em cinzento e este vai ficando mais claro a cada dia que passa. Até o frio perde as suas qualidades metafísicas e passa a ser simplesmente frio, "falta de roupa apropriada" como dizia o meu amigo norueguês.

Só resta esperar que seja o último, mas a verdade é que todos foram o último até agora.