6.2.18

Diário de Bordos - Lisboa, 06-02-2018

"Saúde, dinheiro e amor" têm andado notoriamente escassos por estas bandas, todos os três. Aos poucos vou compondo-os: salto de hospital em hospital, de médico em médico a corrigir anos de desleixo. Com sorte um dia conseguirei pôr a máquina em condições e sobretudo habituar-me à ideia de que já não está em primeira mão. O seguinte na lista depende menos de mim (estão por ordem decrescente de dependência) mas falta pouco: mais quinze dias, no máximo e começo a trabalhar. Quando acabar terá sido o pior e mais longo período de dèche dos últimos sessenta anos - pelo menos tanto quanto me lembro e verdade seja dita tenho uma memória cada vez mais selectiva, como a audição ou o desejo. Mas sempre teve a generosidade de me ensinar muitas coisas, algumas que só conhecia teoricamente e agora tive oportunidade de confirmar, outras que foram novidade total. A grande questão é saber se a aposta valeu a pena; eu aposto no sim, mas o jogador do outro lado é muito forte. A ver. Do terceiro calo-me: não gosta de ser empurrado e quanto menos se falar dele melhor.

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Hoje, entre a minha chegada ao hospital, a consulta e sair decorreu menos de meia-hora; o SNS tem bastantes qualidades e bastantes defeitos - a consulta levou quase três meses a ser marcada - mas quando funciona assim é uma delícia. Portugal é um país dicotómico em tudo e a saúde pública não foge à regra. Só me falta aprender a viver do lado bom das dicotomias, mas isso requer um talento para o qual me falta jeito.

(Felizmente a austeridade acabou; agora chama-se "cativações". Nas mentes dicotómicas dos nossos socialistas, austeridade = mal, cativações = bom. Se ao menos servisse para alguma coisa, mas não: serve para comprar quadros. Talvez o mentecapto que nos serve de Primeiro-Ministro os pudesse pôr nos hospitais. Enquanto se espera pelas consultas davam jeito).

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Tudo leva muito tempo, em Portugal: as bolas que se lançam ao ar por lá ficam meses sem fim. É como se não houvesse gravidade. Claro que há uma relação entre a gravidade e o tempo, mas seria preferível que ficasse confinada à física e não invadisse outros territórios.

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"Saúde, dinheiro e amor": em breve deixarão de ser a outra face da Lua. Não há deserto que sempre dure nem chuva que nunca acabe. A ver se é desta que aprendo astronomia ou pelo menos a fazer chover com mais frequência.