14.2.18

Diário de Bordos - Lisboa, 14-02-2018

Ontem - ou terá sido anteontem? Isto passa tão depressa... - fui ao Irreal e pela primeira vez lá ouvi música medíocre; enfim, a música até era boa ou pelo menos assim-assim.  Terrível foram os textos das canções. Infantis, primários, desinteressantes, déjà entendu mil vezes. As melodias safavam-se. A flauta era um bocadinho pedante, mas quando o homem a trocava pelo sax a coisa ia.

O guitarrista e chefe da banda cultivava uma imagem à la Tom Waits. Fez-me lembrar o Chico António, que ouvi muitas vezes em Maputo e acentuava o seu lado Miles Davis. Apesar de tudo o Chico António era melhor do que este, além de que gosto mais de jazz do que de canção.

.........
Voltei a irritar-me com a senhora que agora gere aquilo. Infelizmente foi pouco, não ando com paciência para exorbitar sentimentos, sejam eles bons ou maus. E esta ainda por cima mal a conheço, não sei se é só um bocadinho parva se completamente idiota. Irritou-me ela ter transferido para a M., com quem eu estava, o mau-humor que normalmente é para mim. Há coisas que não gosto de partilhar.

A M. levou aquilo na boa, ontem encontrei um músico da Martinique (excelente. Toca lá todas as terças. Desta não cheguei a tempo, estive a apanhar uma seca de fado) e pronto, a irritação diluiu-se - apesar de ela ter tentado chatear-me outra vez e de novo falhado. [É para estas ocasiões que o verbo desconseguir foi inventado...]

Só espero é que isto não passe muito deste nível de desgosto mútuo porque a música é boa e o bar excelente. Adoro aquele lugar e não quero ter de deixar de lá ir por causa de uma bifa que ainda por cima anda de boné à Andy Capp, um dos meus heróis.

........
Acho que me estou a repetir. Paciência. Como disse um dia Nuno Júdice "a repetição é um recurso do estilo". Ou coisa que o valha, cito de memória. Os meus livros ainda estão encafuados cada vez mais longe de mim, filhos da mãe. Para não dizer filhos da puta, expressão que tinha reservada para o meu pâncreas, até me lembrar que chamar filho da puta a um orgão nosso é como chamar a um irmão: por mais que o mereçam é chato para a senhora que os fez. Enfim, quero que o pâncreas se foda e para o provar acabo de comer uma tablette inteira de chocolate, coisa que já não fazia vai para muito tempo. Isto de matar o frio com vinho e café tem limites e a repetição tira bastante eficácia ao remédio.

........
Só me apetece ir para a cama ler, mas o sacana do frio até isso torna difícil, não consigo ler com os dois braços debaixo do cobertor e o que está por fora enregela-se e me em menos de dois parágrafos. Tenho meia dúzia de livros à espera da clemência do tempo, mas hoje trouxe mais um do Institut Français, ando para o ler há demasiado tempo. Chama-se L'hiver à Lisbonne e é a tradução francesa (quem diria?) de El invierno en Lisboa, do Muñoz Molina. Se pudesse enchia uma banheira de whisky e metia-me lá dentro com uma tonelada de livros (estes ao lado, claro) e só saía quando o whisky tivesse acabado e estivesse cheio de frio outra vez.

.........
Reflexões profundas sobre a escrita: se leio merda tenho medo de fazer a mesma coisa; se leio uma coisa sublime sei que nunca conseguirei chegar àquele nível. Em ambos os casos o resultado é o mesmo.

(Não é totalmente verdade, mas é como se fosse. Comecei este blog porque li tantos tão merdosos que pensei "de qualquer forma pior do que isto o meu não será". Vão catorze anos e des poussières. Não tarda está um homenzinho).