19.3.18

Diário de Bordos - Port d'Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-03-2018

Apresso-me a esclarecer: apaixono-me facilmente por uma embarcação; mas não sem razão. Nunca gostei, por exemplo, do  W., um chaço de cimento que era suposto trazer do Panamá para Portugal. O mais longe que fui foi a Isla de San Andrés, onde passei um mês antes de regressar a Bocas del Toro (e ter uma discussão com o armador para ser pago).

Foi um dos piores barcos onde jamais pus o pé, era um chaço, um nojo abjecto, à imagem do armador. As embarções são como os animais de estimação: parecem-se com os donos (se bem o outro extremo também seja verdade: há muitos armadores que não merecem as embarcações que têm).

Já o P. é o contrário: galgo fino. Tem uma qualidade infinita, insondável: é um barco.

Eu explico: as embarcações de recreio deixaram de ser embarcações; são residências secundárias que flutuam. Têm espaço, casas de banho onde caibo de pé, bombas de esgoto em tudo quanto é sítio, botões eléctricos, geradores, frigoríficos e congeladores, água quente, fria e morna em todos os cantos, forras nos costados e nos tectos, arrumações até dizer chega, tanques infindos de água e combustível, são bonitas (por dentro; por fora parecem o nome que têm: tupperwares). O P. não é nada disso. Tem, é verdade, água quente na cozinha e na casa de banho e tem um frigorífico (sem congelador). Mas a parte do conforto fica-se por aí. É, como disse um dos senhores que hoje foi a bordo, "rústico". (Estamos em Mallorca: há que dar-lhe um desconto. Há muitos anos que ele não entra num bote assim e deve ter-se esquecido que um barco não é rústico. É náutico. É barco. É verdade).

É um barco de regata e os barcos de regata têm essa característica: são simples, desnudados, são como eu: como são se dão. Os paneiros são fáceis de levantar porque ninguém durante uma regata se preocupa se fazem barulho ou não; e não têm forras, primeiro por causa do peso e depois porque queremos chegar depressa a qualquer ponto onde seja preciso fazer uma reparação.

(Os barcos de regata tendem a ser puxados para lá de alguns limites, facto que provavelmente explica as mazelas do P. Um exemplo: uma vez numa das etapas de um dos Tours que fiz - foram dois - íamos a uma bolina folgada em sétimo lugar, popa com proa, todos em fila, juntinhos a terra porque tínhamos a corrente contra. De repente vimos o primeiro bater numa rocha e virar de bordo. Pensam que alguém virou antes do mesmo sítio? Enganam-se. Fomos todos até à mesma rocha e só virámos quando batemos, com o argumento sólido de que se o primeiro tinha passado nós também passaríamos. Tentámos foi não nos desviar muito da rota, porque não sabíamos se a rocha era mais alta para um lado ou para outro... No OPTIMISTA acontecia uma coisa semelhante quando subíamos o rio contra a maré, mas aí o fundo era de areia - e já nos  devia conhecer a quilha, de tantas vezes que lá tocámos antes de virar de bordo -).

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Envolvi-me estupidamente numa discussão de comentários por causa de um post no FB. A culpa foi minha, claro: ninguém me obrigou a botar faladura.

Fiquei todavia impressionadíssimo com a quantidade de malta que - citando uma das minhas expressões favoritas da ENIDH - "estava a falar porque  queria". Significa "dizer asneiras, dizer disparates, não saber do que se está a falar". Mais preocupado ainda fiquei quando vi pessoas com responsabilidades na "formação" em náutica de recreio reproduzir ou apoiar esses disparates. Prometi várias vezes que me retirava e não cumpri a minha palavra. Tinha coisas a dizer, não as dizia por querer, mas agora chega. De qualquer foma nunca achei as "escolas de navegação" (entre aspas porque é uma ironia) grandes tiros de espingarda. Que o dono de uma delas confirme o meu achismo não me enche particularmente de alegria, mas enche-me de um sentimento que à falta de melhor designo por "estar-me nas tintas".

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(Termino reconhecendo que por vezes cedo aos confortos  das embarcações actuais. A carne é fraca).

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Hoje fez anos a minha primeira namorada. É um dos raros aniversários que nunca esqueci. Curioso, não é? A plasticidade do nosso cérebro na adolescência é admirável.