21.4.18

Diário de Bordos - Setúbal, 21-04-2018

É preciso começar por dizer, insistir, sublinhar, repetir que o senhor é encantador. Venho com ele a Setúbal ver uma exposição de fotografia cum vídeo cum instalação.

Já lera o texto de apresentação e sabia portanto ao que vinha. Não tenho a desculpa de ter vindo ao engano.

Isto dito, a fotografia não é totalmente falha de interesse: retratos de corpo inteiro de uma senhora nua (a artista) em diversos cenários, vestida com uma capa de plástico transparente. Não ligando muito à verborreia vazia e cliché-ística do citado texto as imagens podem eventualmente levar-nos a paragens interessantes. Do vídeo e da "instalação" - a dita capa de plástico transparente, suspensa do tecto por fios de pesca ou semelhante - não vale a pena falar.

No caminho o senhor explica-me com a maior seriedade do mundo que nos anos noventa Setúbal definhou por vontade expressa do "cavaquismo" (aspas porque cito), por vingança política: "Setúbal, comunismo..." (idem, de memória). Para aquela pobre cabeça - que provavelmente é excelente no seu trabalho ("escultura e terapias quânticas, Reiki, etc" - ibidem) Cavaco foi para o governo com o fito de condenar uma cidade - provavelmente uma região - à miséria porque essa cidade ou região (a extensão é minha) é ou era comunista.

Saio da exposição e venho passear por Setúbal, cidade de que gosto bastante e onde não venho há muito tempo. A primeira paragem é outra exposição, esta de pintura intitulada 5 mulheres artistas (sic). Das cinco escapa uma, à tangente .

Serei eu o único a estar farto do feminismo, dos "géneros" e da verborreia líquida e inconsistente de quem precisa de os montar para ser visto?

E ainda por cima julgam-se na "vanguarda" (aspas porque está cheio de segundos sentidos) e não se apercebem de que não passam de mais um no rebanho, vozes afinadinhas do coro Zeitgeist, coro imortal e tão antigo como o gemido.