2.5.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-05-2018

Começando pelo princípio: mais vale não começar por aí.

Comecemos antes pelo que me inquieta verdadeiramente. Passei a tarde a andar de bicicleta de um lado para o outro em Palma e não ouvi uma única buzinadela, insulto, grito que fosse. Nada. Zero, Nix oberlix. Que se esconderá por trás deste silêncio?

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Comprei uma bicicleta Órbita. Foi uma compra inoportuna, para dizer o mínimo. Porém: tinha prometido ao homem, por um lado; por outro, a burra é irresistível.

Fiquemos por aqui. Pedalo todo direito e bem sentado, com espaço para a barriga e para a má consciência.

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Tenho finalmente um telefone. É um Nokia. Não sei mexer com ele nem ele comigo e ainda lhe faltam metade dos números. Não sei como fazer quando um dia tiver de descrever como vivo. Penso que só para amadores de carrinhos de choque e montanhas russas, como eu. Os outros não perceberiam, nem que eu fosse Stendhal.

Ou Pla. Hoje comprei dois livros dele: um diário de juventude e um relato de uma viagem a Itália. Ao folhear este último apercebi-me (já?, perguntarão alguns) de uma diferença fundamental: eu não viajo. Mudo de casa. Nunca conseguirei escrever um livro de viagens por essa razão simples e irrebatível.

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Fui à Babel comprar os livros e beber um copo e olhava para casa onde vivi com T., há uns anos. E depois?, pensei. Não é o depois, estúpido. É o antes.

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Acabo a trabalhar no café Rita, bem nomeado. O rapaz ainda se lembra de mim e fez uma referência ao copo entornado.

Gostaria uma vez de ser capaz de me deitar sem ter o trabalho do dia acabado. Não consigo. Infelizmente: esta incapacidade não me levou muito longe.

Tenho pelo menos a sorte de poder acabar o dia num dos melhores lugares de Palma, com música excelente, mesas bonitas de mármore, um nome que me faz sonhar e umas Hierbas Secas magníficas. Uma mina de carvão seria pior, sem dúvia. Para não mencionar um escritório, claro.