10.6.18

Diário de Bordos - Peguera, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-06-2018

Antes de mais nada: a iniciativa "Monnaie pleine" não passou. A Suíça tem o melhor sistema político do mundo.

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Convidei o I. para jantar. Bebemos uma garrafa de rum (Cacique, estranhamente quase bom) e contámos histórias (é marinheiro, como eu).

Não conheço as histórias das outras profissões, mas as de marinheiros têm duas coisas boas: o âmbito geográfico (falamos dos lugares que conhecemos como se falássemos da nossa cidade natal - "lembras-te da loja de electrónica que havia por baixo do bar do Leo?") e a demonstração de que há uma humanidade. Isto é, as histórias que ele me conta com um tripulante de Carriacou vivi-as com alemães (por exemplo e oposição).

A humanidade é só uma, os racistas não percebem nada e há racistas em todos os lados da barricada. Um preto idiota é idiota antes de ser preto, tal como um gordo inteligente é inteligente antes de ser gordo.

Não percebo nada das outras profissões (enfim, percebo pouco) mas uma coisa é segura: nenhuma chega aos calcanhares da de marinheiro. Isto não é uma profissão, é uma mundividência. Somos filósofos agarrados a cabos e cascos, a rumos e ventos. Um marinheiro analfabeto sabe tanto da vida e do mundo como qualquer professor universitário (dos vulgares, quero dizer. Dos outros talvez não). Somos uma espécie de antropólogos cum psicólogos cum sociólogos cum realizadores de cinema sem câmara: as histórias caem-nos já feitas aos pés, porque é a humanidade que as faz.

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É claro que não é a beber meia garrafa de rum numa noite que vou emagrecer, mas se tivesse de optar escolheria o rum.

Isto é: escolho. Quando morrer emagreço num instante, se as bactérias gostarem de mim.

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Dia de Portugal. Já lá estive. É porreiro.

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Revejo Rio Cuanza. "Falta-te alma", diz-me L. Como escrever sobre o nosso passado com "alma"? Que se foda a alma: não fui eu que vivi aquilo, foi outro e não me posso pôr na alma de outrém.

Talvez pudesse, mas seria mentira.

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Se o mundo fosse feito só de marinheiros seria um lugar melhor: só nós conhecemos a fórmula mágica, mescla de mudar e adaptarmo-nos. Há uma mistura subtil, milimétrica como o Painkiller do Soggy Dollar Bar: muda-se o que se pode e adaptamo-nos ao resto.

Não sei como formular isto: não é uma questão de mudar para que tudo fique na mesma. É deixar tudo na mesma para que mude o que for preciso.

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I. ia ao Mad Mongoose em Antigua. Sair com uma miúda que já foi namorada de alguém conhecido é chato, afasta-nos. Partilhar um bar é o contrário.

O Mad Mongoose que conheci já não existe.

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Não quero reviver a minha vida. Vivê-la chega-me.