11.6.18

Por que esperas

Avinha-te, abespinha-te, arruma-te que sem vinho e sem rum só ficam as espinhas. Pensa depressa na noite que sem vagar para divagações devagar te deixa ao sopro desta ligeira brisa e te guia pelos becos a caminho do mar. Decide-te: a vida talvez espere, mas a noite essa não, de certeza.

Vida de noites, que de dias estamos satisfeitos: temos tudo o que é preciso. Um sonho, dois desejos, três visões, quatro objectivos. Um dos quais é quatro quartos: para ti, para mim, para os dias e para as noites. Convém que os objectivos não se misturem entre eles.

Já nós podemos, se formos devagar. Misturamo-nos lentamente: nós, a noite e o tempo, que inclui dias e menos dias. Passar-te por exemplo a mão pelo cabelo levaria décadas, se a noite fosse igualmente lenta. Poderíamos também pedir à vida que faça um desconto, mas não somos de pedir e menos ainda descontos. Quando muito desmais, demais, a mais, muito.

Amai-vos, diz a noite impaciente. Há-as assim: impetuosas e breves. Prefiro-as impetuosas e longas como quando em cima de mim cavalgavas um sonho e o sonho não acabava.

Longa noite foi a nossa: ainda dura. Não se pode apagar a luz que nunca se acendeu, não é? A nossa já estava acesa e acesa continua: por que esperas?