24.6.18

Tempo, chuínga

A imagem do tempo como pastilha elástica é velha, gasta, estafada. Deu o que tinha: mastigas as horas e colam-se a ti, fazes balões com elas, rebentam e enchem-te os lábios daquela matéria pegajosa que agora já perdeu o sabor, limita-se a ficar ali por manifesta incapacidade de ir mais longe, mais abaixo, em direcção ao teu tubo digestivo onde - imaginas - se vai colar às paredes de um orgão qualquer e vai ficar por lá agarrada dias, semanas, meses até o teu corpo conseguir finalmente expulsá-la, irreconhecível.

Passa-se porém o mesmo com a angústia, com a ansiedade, com as emoções todas, das mais simples às mais complexas. Não te largam, como um telhado bem construído numa casa devastada por uma catástrofe natural, cheias, ciclone, tromba de água, derrocada, seja o que for: olhas para a casa de longe, solitária no meio da planície, o telhado encarnado inteiro, as paredes brancas, cada cor no seu lugar e pensas que a casa está habitável.

Enganas-te. O tempo entrou naquela casa e nunca mais saiu, como entrou em ti e descobres que a pastilha elástica és tu e não ele.