30.11.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-11-2018

Que dia... E ainda só vai a meio.

Encontro a bordo com S. e J. para discutirmos o apoio da sapata do pé do mastro. S., diz-me J. (o surveyor) é um génio da fibra e uma excelente pessoa. Combinamos para sexta-feira que vem, apesar de ser feriado. Não pode vir antes e assim fica com o fim-de-semana para acabar. Pelo menos a segunda parte de descrição de J. é verdade. Não é todos os dias que se encontram nesta ilha pessoas dispostas a abdicar de um dia feriado, sendo que ainda por cima pensa prolongar pelo fim-de-semana, se for caso disso.

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Estou outra vez constipado. "Outra vez" sendo mentira: é sempre a mesma constipação, mas quando reaparece vinga-se e deixa-me de rastos. Não é a primeira vez que estou doente nesta casa de hóspedes, mas da outra tinha pelo menos alguém a quem me queixar. Quando se está sozinho uma constipação é a coisa mais inútil do mundo.

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Fui almoçar à Bodeguita del Centro. Sublime bife com molho de pimenta. Nunca perceberei porque é tão difícil aos portugueses fazer um bife mal passado, entre o cru e o mal passado. Não custa nada, basta saber contar até três: Uma frigideira perto do ponto de fundição, põe-se o bife, um dois três, vira o bife, um dois três, serve.

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Grande conversa com J., de quem me aproximam duas ou três coisas essenciais: o amor pelos barcos, primeiro; pelo trabalho bem feito, segundo; não sermos movidos a dinheiro, terceiro. Não sei como é nas outras profissões, mas esta tem isto de particular: ganha-se bem, é certo. Ou mal, é igualmente certo. Alternadamente. A única coisa que permanece é esta espécie de adoração irracional por coisas que flutuam com linhas bonitas: um barco, pensava eu hoje pela milésima vez, é a coisa mais perene da história da humanidade. Se hoje no P. entrar o primeiro homem que teve a ideia de pôr um pedaço de pano num pedaço de pau, aposto que ao fim de cinco minutos ele se entende.

No fim, decidimos que a armadora merece tudo: "a indústria precisa de pessoas assim", diz J. E nem eu lhe disse da missa a metade, claro: fiquei-me pela sorte que é poder refazer este barco "pondo quanto sou no mínimo pormenor", passe a paráfrase desajeitada.

Obrigado, M.

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Nunca, que me lembre, fui simultaneamente tão feliz e tão ansioso como agora. As crises de ansiedade - herança da minha querida Mãe - são intensas, aproveitam-se dos motivos mais delirantes. Já a felicidade é difusa, indefinível, está em todo o lado e só se manifesta um pouco mais fortemente quando de manhã chego a bordo e vejo aquelas linhas finas, elegantes, de braços estendidos a dizerem-me "despacha-te".

Despacho-me, sim, P. Mas olha que mais vale fazermos isto como deve ser do que depressa: depressa em breve estará esquecido. Como deve ser nunca passará. 

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