11.1.19

CTT - Uma saga portuguesa

No dia 5 de Dezembro do ano passado enviei uma encomenda de Palma para Coimbra. Como não sabia a morada do organismo para onde ela ia, tirei-a da net, do Google. A morada estava errada: o organismo em questão mudou de instalações há dois ou três anos mas o Google ainda não a actualizou. No dia 12, soube pelos correios espanhóis que a encomenda não tinha sido entregue devido a um erro na morada.

Tentei entrar em contacto com os CTT, mas é como tentar falar para o céu: Deus está demasiado ocupado para responder aos telefonemas de meros mortais como nós. Ao fim de inúmeras tentativas - dois ou três dias, a no mínimo dez vezes por dia - consegui falar com uma agência dos correios de Coimbra. "Vamos fazer uma nova tentativa". Como o organismo ainda é dono da morada onde já não está há alguns anos - o dinheiro público em Portugal é bastante bem administrado - avisei a destinatária final da encomenda de que provavelmente teria um aviso de recepção na outra caixa de correio.

Não havia aviso de recepção nenhum. Mais dois ou três dias até conseguir falar com a agência de Coimbra que responde ao telefone - foi o único fixo de todos os que tentei que respondeu - consegui o número de telefone portátil de um senhor que se prontificou a ajudar-me. Durante todo este tempo, os e-mails e mensagens que enviei para o "apoio ao cliente" (entre aspas porque cito e por piada) estavam sem resposta. Podemos arrumar desde já a parte escrita desta história: língua de madeira, respostas tardias e a más horas em português administrativo, provavelmente o pior crime que se pode fazer à nossa língua depois do AO90.

Continuemos com o telefone: o primeiro senhor cujo telemóvel me foi transmitido informou-me de que a encomenda tinha sido enviada para um outro centro  dos CTT e deu-me o número de telefone portátil de um seu colega; este já não trabalha nos CTT e deu-me outro; este não trabalhava naquele sector e deu-me outro. Até que chego finalmente à fala com um senhor (F. S. porque me pediu para o tratar assim). Começo por agradecer ao senhor F. S. a paciência de que deu provas. Sou educado mas não sou especialmente fácil. Nessa altura estava convencido de que a encomenda tinha sido roubada e queria ter a confirmação disso o mais depressa possível.

Entretanto meteu-se o Natal, depois o fim do ano. O senhor F. S. confirmou que a encomenda estava no centro onde trabalha, mas ele não sabia onde. "Ainda não foi devolvida", explicou-me. "Mas encontrá-la vai ser uma questão de tempo, nós nesta altura do ano temos muito correio, como pode imaginar".

Posso, senhor F. S. E posso imaginar o esforço que fez para a encontrar e a devolver para Coimbra. Deixo-lhe aqui o meu agradecimento. V. é a prova viva de que as nossas instituições são piores do que o nosso povo.

Em Coimbra a encomenda foi ainda uma vez entregue na morada errada - apesar de eu já ter dado a morada correcta tanto aos Correos como aos CTT, mas graças a um senhor (M. C., por questão de coerência) a encomenda foi apanhada ante de ser reenviada para o centro de devolução. O senhor M. C. tomou nota, ele pessoalmente, da morada e reenviou a encomenda, que foi entregue hoje, um mês depois da primeira tentativa de entrega.

Não agradeço aos CTT. Como instituição não valem a ponta de um chavelho. Mas agradeço às pessoas dos CTT que deram provas de profissionalismo, de sentido de serviço, de brio profissional e - no fundo - de humanismo.

Bem hajam.