1.7.19

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-07-2019

A Bodega Can Rigo existe há cento e quarenta anos. Não é sítio que frequente muito porque está no meio do quarteirão mais turístico de Palma, mas cada vez que lá vou admiro a casa por isso mesmo: resistiu, manteve o seu carácter mallorquin, serve hoje como - adivinho - servia quando abriu. Hoje olhava para o espaço (é minúsculo) e pensava que deve ter sido refeito há trinta ou quarenta anos. Não sei. Perguntarei ao dono, quando lá for um dia mais tarde e ele estiver de serviço. Comparo a casa com o P., que está a fazer num ano o que não fez em trinta e cinco. Vai ficar como a Can Rigo: novo com trinta e cinco anos de idade.

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Uma das coisas que mais aprecio neste trabalho é a quantidade de novidades que estou a aprender. Saber é bom, sem dúvida; mas aprender é melhor: é o caminho que leva a saber e os caminhos que levam a um lugar são melhores do que o lugar. Hoje, por exemplo, fiquei a saber que um tanque de combustível de aço inox não é só um tanque de combustível de aço inox, tal como eu pensava. É preciso que as soldaduras tenham sido feitas pelo exterior E pelo interior, sob risco de fugas de combustível intempestivas e incontroláveis. A sujidade no tanque - que inevitavelmente se acumulará - provocará pequenos pontos de corrosão ao longo das juntas e mais tarde ou mais cedo haverá fugas de gasóleo, se não houver soldadura dos dois lados.

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Um dos aspectos negativos do saber é ser um antídoto para o optimismo. Ora sendo este (em excesso) uma peça basilar na constituição de qualquer marinheiro, será que saber tende a fazer desaparecer o marinheiro?

Não. O que acontece é que o optimismo avança, muda de território; o marinheiro não deixa de ser marinheiro: é o seu optimismo que muda e se instala um bocadinho mas à frente, um bocadinho mais fundo.

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Uma coisa posso eu garantir: no dia em que o P. ficar pronto vai haver nesta terra uma explosão de champagne, whisky, rum, hierbas, Palos, Vermute, cerveja, vinhos branco e tinto,  Bailey's, Bénèdictine, Pastis, Vodka, Gin, Tres Caires da qual se guardará memória muito tempo.

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Quinta-feira chega o A. M., um capitão filipino que há muitos anos (sete ou oito) ajudei, num transporte complicado da Martinique para St. Martin. Deve ser das pessoas mais adoráveis com quem já naveguei. Convidou-me para jantar e perguntou-se se estou à procura de trabalho, pode ajudar-me, quer ajudar-me. Não nos vemos desde St. Martin...

"I know them. I am one of them."

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.