3.4.25

A monte

Ando a monte. Fujo da vida como se não houvesse morte.

Portanto

Se ela fosse a minha noite dormiria todas as noites com ela, nela. Mas não é. Nem minha, nem noite. É o dia resplandecente, o sol que o ilumina, esse dia tão luminoso quanto eu sou a escuridão. 

(Dia sem noite, portanto.)

O campo e os comboios

Viver no campo tem as suas vantagens, mas eu aconselho quem não tem nem quer ter carro a pensar duas vezes. O transporte ferroviário no nosso país é ligeiramente melhor do que o do Benin e talvez do que o da Gâmbia, mas está longe de ser satisfatório para quem acredita estar na Europa. 

Nunca mais me queixarei da "pontualidade" da CP, juro (aspas porque é irónico). Estar num comboio já é um bambúrrio.

Isto dito: sempre é melhor do que Mértola, que nem comboios tem.

Peregrinações

Não me importaria nada de fazer o "caminho de Santiago" (aspas porque cito) mas de avião. Ou de comboio, vá. A pé, de bicicleta, a cavalo num burro ou só a cavalo, de trotineta,  patins, de carro ou de mota dispenso, obrigado.

Apetece-me dizer o que o meu Pai dizia à minha Mãe quando a ia deixar à igreja para a missa semanal: "Reza por mim, mulher, que eu estou velho". Depois ia para o Refeba, ali ao lado, rezar a outros deuses e juntar-se a outros peregrinos.

2.4.25

À distância

Sempre vivi à distância de tudo e de todos. Até de mim.

Isto dito, amo-te

Não há expressão que tão bem demonstre a insuficiência da linguagem como "Isto dito".

Isto dito nada está dito, tudo está por dizer, falta dizer qualquer coisa, é preciso esclarecer o que antes ficou obscuro.

Isto dito: a linguagem é uma permanente morte na praia. Nada nada nada e morre à chegada. Não tem salvação. 

Isto dito: o que acabei de dizer não é mentira, é só insuficiente. 

Isto dito: há palavras a que não se pode acrescentar nada, que não aceitam clarificações nem complementos.

Por exemplo: amo-te.

Dormir, venenos

Toda a gente quer dormir mas quando se lhe propõe dormir para sempre, aí já ninguém quer. Ou muito poucos, vá lá. Ora se dormir fosse bom, dormir para sempre seria melhor, ou não?

Não sei. Talvez não. Talvez dormir seja bom exactamente por não ser para sempre. É como os venenos, que dependem da dose. Se esta for pequena são um medicamento e só se tornam venenosos se a dose aumentar. 

É como tudo, na verdade: não há nada que não  beneficie de comedimento, de matizes. Até as vitórias precisam de derrotas intercaladas para não se julgarem eternas.

1.4.25

Dispersas diversas

Dispenso o uso de bloco-notas, gravador ou o que quer que seja para anotar ideias.
É uma das vantagens de ter apenas uma ideia por dia.
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Dizem que sou gozão. Nada mais longe da verdade. Sou sarcástico, o que é diferente.
Ao contrário da troça, o sarcasmo é um elogio à inteligência de quem ouve.
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Em Portugal envia-se um e-mail a alguém e a resposta demora dias ou semanas a chegar. Faz-se a mesma coisa para lá dos Pirinéus e a resposta é imediata, chega no mesmo dia ou no seguinte. A explicação fornecida habitualmente pelos destinatários portugueses é a carga de trabalho. Estamos todos assoberbados de trabalho.

Já "lá fora" ninguém faz nada. Deve ser por isso que nós somos ricos e eles uns tesos.