Ando a monte. Fujo da vida como se não houvesse morte.
3.4.25
Portanto
Se ela fosse a minha noite dormiria todas as noites com ela, nela. Mas não é. Nem minha, nem noite. É o dia resplandecente, o sol que o ilumina, esse dia tão luminoso quanto eu sou a escuridão.
(Dia sem noite, portanto.)
O campo e os comboios
Peregrinações
Não me importaria nada de fazer o "caminho de Santiago" (aspas porque cito) mas de avião. Ou de comboio, vá. A pé, de bicicleta, a cavalo num burro ou só a cavalo, de trotineta, patins, de carro ou de mota dispenso, obrigado.
Apetece-me dizer o que o meu Pai dizia à minha Mãe quando a ia deixar à igreja para a missa semanal: "Reza por mim, mulher, que eu estou velho". Depois ia para o Refeba, ali ao lado, rezar a outros deuses e juntar-se a outros peregrinos.
2.4.25
Isto dito, amo-te
Não há expressão que tão bem demonstre a insuficiência da linguagem como "Isto dito".
Isto dito nada está dito, tudo está por dizer, falta dizer qualquer coisa, é preciso esclarecer o que antes ficou obscuro.
Isto dito: a linguagem é uma permanente morte na praia. Nada nada nada e morre à chegada. Não tem salvação.
Isto dito: o que acabei de dizer não é mentira, é só insuficiente.
Isto dito: há palavras a que não se pode acrescentar nada, que não aceitam clarificações nem complementos.
Por exemplo: amo-te.
Dormir, venenos
Toda a gente quer dormir mas quando se lhe propõe dormir para sempre, aí já ninguém quer. Ou muito poucos, vá lá. Ora se dormir fosse bom, dormir para sempre seria melhor, ou não?
Não sei. Talvez não. Talvez dormir seja bom exactamente por não ser para sempre. É como os venenos, que dependem da dose. Se esta for pequena são um medicamento e só se tornam venenosos se a dose aumentar.
É como tudo, na verdade: não há nada que não beneficie de comedimento, de matizes. Até as vitórias precisam de derrotas intercaladas para não se julgarem eternas.