Decúbito fetal. Joelhos o mais perto possível do queixo (mesmo assim, ficam longe: as tuas capacidades de contorcionismo são limitadas), mãos sobre os ombros (ditto. Cruzadas: a direita sobre o esquerdo, a esquerda sobre o direito), queixo no V dos antebraços. Apertas-te como se abraçasses alguém que amas e não vês há muito tempo. Não são os casos, nem um nem outro. O teu amor por ti próprio não anda muito longe da tua agilidade, da tua maleabilidade; convives contigo quotidianamente, por muito que desejes abandonar-te como a alma deixa o corpo, para sempre, sem possibilidade de regresso. Prosaicamente, procuras apenas gerar calor, aquecer-te, dando ao pronome dois sentidos, activo e passivo. Como se estar encolhido numa cama, debaixo de três camadas de cobertores pudesse ser uma acção. É. Pode. Concentras-te nela. Pouco a pouco o corpo aquece-te, a manhã aproxima-se a grandes passos do relógio. Escrever traz-te de volta ao frio. Traste. Divides-te entre duas necessidades que se excluem: aquecer-te, escrever-te. Como se o papel em que escreves fosse o ecrã de um telefone. É. Como se esse ecrã fosse um espelho. É, mas imperfeito. Regressas à tua posição, apertas-te com a força da saudade: estiveste ausente de ti. O reencontro é caloroso: apertas-te com força, reencontras a paz da imobilidade, aqueces-te, esqueces-te. Talvez um dia te ames, até. Hoje o objectivo é mais modesto: limar as imperfeições do teu espelho.
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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.