3.4.26

Impromptu ferroviário

Um pequeno imprevisto não previsto, passe o pleonasmo involuntário, claro, como tudo o que por aqui passa, passe a mentirita, um pequeno imprevisto, dizia, fez-me regressar a Caminha de comboio em vez de ir de carro como estava previsto antes do imprevisto. Tive uma vez mais direito aos habituais atrasos dos comboios da CP, que devia acrescentar um A ao nome e à proverbial simpatia do seu pessoal, que merece uma medalha. De caminho e como tinha quase uma hora de espera fui jantar a um restaurante indiano perto da estação (da Campanhã, a quem possa interessar) que bem poderia acrescentar um H ao nome. Ando com azar aos restaurantes, se bem o de ontem ainda não mereça o tal H. Uma andorinha não faz a Primavera e uma refeição merdosa não faz de um restaurante um local intragável, tanto mais que a primeira vez que lá comi não foi mau de todo. Foi só assim-assim, nem bom nem mau antes pelo contrário. Já o lamb madras de hoje estava péssimo, aquilo parecia mais molho de tomate do que outra coisa mas pronto, não faz mal, a verdade é que não esperava muito mais. De maneira aqui vou no intercidades atrasado, em primeira classe apesar de ter bilhete de segunda. O senhor revisor, quando lhe fui perguntar se podia mudar o bilhete disse-me «sente-se ali e não se preocupe» e obedeci-lhe em tudo: sentei-me e não me preocupo. A carruagem está um bocadinho fria, é certo, mas não sou eu quem vai reclamar, não reclamo de nada, aliás, sou um rapazinho obediente e já li o Cândido e sei que vivo no melhor dos mundos possíveis e portanto é uma sorte não estar ainda mais frio ou o atraso não ser ainda maior. Tanto mais que a espera passou bem, estou sem bateria no telefone mas tenho o tablet e no restaurante pude ler as notícias e aqui posso escrever apesar de o wifi não estar a funcionar, coisa que não me impede de todo de agradecer publicamente à CP e ao seu pessoal que é de uma simpatia estratosférica. Além disso tenho o blusão de cabedal (de carneiro) que comprei em Gibraltar a preço de saldo e portanto posso fazer jus à sentença do armador norueguês com quem naveguei de la Corunha a Copenhague: «Não existe "tenho frio". Existe "não estou suficientemente vestido"». O comboio leva-me velozmente e fende a noite escura como se esta fosse manteiga e ele (comboio) uma faca quente e eu começo a pensar que sem telefone não poderei chamar um táxi em Caminha e lá terei de fazer apelo à minha proverbial capacidade de me desenrascar de qualquer imprevisto por menos previsto que seja. Ou seja: terei de ir primeiro a um sítio qualquer que esteja aberto e tenha um carregador e um cabo USB-C e me deixe pôr o telefone a carregar um momento e daí chamar o táxi e tentar não pensar «porra!, só quero é estar em casa» que é aonde realmente queria estar agora, quanto mais daqui a não sei quanto tempo porque não sei a que horas chegarei a Caminha porque sem wifi não tenho acesso aos horários da CP e o simpático revisor ainda não veio para estas bandas. Está quase, vejo agora, vejo-o a chegar. Isto dos relatos em tempo real é outra coisa, não é? É, se bem ainda esteja à espera de que alguém me explique o que é o tempo irreal, mas isso fica para depois, tanto mais que o senhor revisor manteve a sua palavra e me disse «deixe estar» quando lhe mencionei a troca do bilhete. Isto faz-me pensar na TAP, que anda sempre atrasada e tem o melhor pessoal de cabine do mundo e arredores. Bom, tudo isto para dizer que hoje fui finalmente almoçar ao restaurante O Antunes e lá comi um excelente cozido à portuguesa em excelente companhia pré-imprevisto. Percorri de novo a zona entre a Cedofeita e o Bolhão, a única que conheço no Porto, pude uma vez mais asseverar a honestidade de um senhor a quem há anos paguei uma certa soma de dinheiro por uma peça que nunca mais fui buscar e que hoje me disse «o seu crédito continua válido», a citação não é verbatim mas o sentido é esse e estava o dia quente e eu feliz como sempre que o calor me harmoniza com o mundo, a vida e as ruas de uma cidade de que gosto muito, cheias de jovens, revoadas deles, rapazes e raparigas alegres, a alegria deles ecoa pelos prédios fora, tão velhinhos que eles são.
 
É isto o Porto, meus amigos: juventude, honestidade e boa comida. E é isto uma viagem de comboio: conforto e simpatia pela noite fora.

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A ida ao Porto tinha dois motivos e um deles era ver a exposição de Vivian Maier e tenho muitas coisas a dizer dela, refiro-me à exposição, mas agora só tenho uma: vinde. Vinde, estejais aonde estejais, vinde ao Centro Português de Fotografia, aquilo fica até Agosto, não perdais uma exposição que vos leva ao âmago da fotografia enquanto arte, da arte fotográfica, de tudo aquilo que a fotografia representa mas que agora é difícil de descrever porque por um lado ainda esta muito quente e por outro os solavancos destes comboios não ajudam – isto está longe de ser uma reclamação –, é preciso escrever cada palavra duas vezes. Quase. Imaginem agora o trabalhão que este texto me deu até aqui, já passa das novecentas palavras (escrevo no Word...)

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Já o resto da viagem decorreu como o previsto, o único imprevisto sendo que o T. T. estava na estação à espera da mulher e deu-me boleia até à rua Direita. Ali, no bar Norte, carreguei o telefone, bebi um par de cervejas, chamei um táxi e esperei mais de meia hora por ele porque Caminha não é Manhattan e o senhor estava não percebi bem aonde e isto não é Manhattan nem nada que se pareça; a chegada a casa também foi como previra e pronto, agora sim, o dia acaba, coisa mais do que prevista: acaba um dia, começa outro, acaba um imprevisto e não tarda haverá outro, eu sei. Ou pelo menos espero, que isto de vidas nos carris não é para mim nem eu para elas, talvez infelizmente, sei lá.

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Não prometo responder a todos os comentários, mas prometo que fico grato por todos.